Tem uma cena clássica em Matrix onde o Morpheus oferece duas pílulas ao Neo: a azul, pra continuar dormindo no mundo de mentira, e a vermelha, pra encarar a realidade nua e crua.
Todo ano, quando a China abre suas "Duas Sessões" — o grande teatro parlamentar de Pequim — o mercado global engole a pílula azul com gosto. Meta de PIB bonita, discurso de estímulo, números redondos. E segue o baile.
Mas vamos à pílula vermelha.
O que vai rolar
A reunião começa nesta quarta-feira com o congresso consultivo e, na quinta, abre o Congresso Nacional do Povo, onde o premier Li Qiang vai soltar os números que o Partido Comunista já cozinhou em dezembro. Não tem surpresa. Isso é teatro kabuki com características chinesas.
Eis o que os economistas esperam:
Meta de PIB: algo entre 4,5% e 5%. Seria a mais baixa já registrada. Vários governos locais já baixaram suas próprias metas, sinalizando que Pequim faria o mesmo. A galera do Economist Intelligence Unit aposta em 4,6%. O Morgan Stanley, sempre otimista com quem lhe paga taxa, acha "baixa probabilidade" de uma meta menor que 5%, argumentando que 2026 é o primeiro ano do 15º Plano Quinquenal e que precisa de "crescimento para ancorar confiança".
Ancorar confiança. Porra, isso é a mesma coisa que dizer que precisa de maquiagem pra esconder as olheiras.
Inflação: meta de 2%. Que na prática funciona como teto, não como objetivo. No ano passado inteiro, a inflação foi zero. Flat. Nada. Excluindo alimentos e energia, 0,7%. Isso não é estabilidade de preços — é deflação disfarçada. É uma economia onde o consumidor não quer gastar, o setor imobiliário está em coma, e a confiança virou pó.
Detalhe sutil que poucos notaram: o Bureau Nacional de Estatísticas mudou recentemente o peso dos serviços no cálculo do índice de preços ao consumidor. Quando o cara começa a mexer na régua, desconfie.
Déficit fiscal: 4% do PIB. Igual ao ano passado, que já foi o maior desde 2010. O recorde anterior era 3,6% em 2020, no auge da pandemia. Ou seja: a China está gastando em nível de crise sem estar oficialmente em crise.
O que importa de verdade (e ninguém vai te contar no jornal)
Esqueça os números bonitos. O jogo real está em três frentes:
1. O consumidor chinês está de greve. Não é greve organizada — é desânimo coletivo. O mercado imobiliário, que representava boa parte da riqueza das famílias, continua derretendo. Sem casa valorizando, sem confiança pra gastar. Os subsídios de troca (trade-in) que Pequim oferece são band-aid em ferida aberta.
2. O Plano Quinquenal e a obsessão por autossuficiência tecnológica. Este é o 15º plano da história moderna chinesa e vai definir a rota até 2035. A palavra de ordem é "autossuficiência em tecnologia". Semicondutores, IA, computação quântica. Traduzindo: a guerra fria tecnológica com os EUA não é mais subtexto — é o texto principal.
3. O mundo lá fora está pegando fogo. Tensões comerciais com os EUA, conflito no Oriente Médio escalando, e agora o risco de que uma guerra prolongada com o Irã adie até a visita de Trump à China. Cada uma dessas variáveis muda o cálculo de Pequim.
O que Nassim Taleb diria
Taleb escreveu que planos centralizados sofrem do problema da fragilidade: quanto mais você tenta controlar, mais vulnerável fica ao cisne negro que não planejou. A China planeja em ciclos de cinco anos. Os cisnes negros não respeitam cronograma.
A campanha anticorrupção de Xi Jinping, por exemplo, reduziu o número de delegados nas Duas Sessões. Quando você corta gente do processo, você não está eliminando corrupção — está concentrando poder. E concentração de poder é fragilidade vestida de força.
O mercado vai reagir às manchetes. Os ETFs da China — MCHI, ASHR, FXI — vão oscilar por dois dias e depois todo mundo esquece.
Mas a pergunta que você deveria estar se fazendo não é "qual vai ser a meta de PIB da China". A pergunta é: se a segunda maior economia do mundo precisa de déficit recorde, estímulo constante e maquiagem estatística pra entregar 4,5% de crescimento, o que acontece quando a maquiagem não segura mais?
Engole essa com sua pílula azul.