Tem uma cena clássica no Matrix onde o Neo finalmente enxerga o código por trás da realidade. Tudo que parecia sólido vira ruído verde piscando na tela.

É mais ou menos o que acontece quando você para de ler manchete de mercado e começa a ler os números de verdade.

A Lowe's — segunda maior rede de home improvement dos Estados Unidos, atrás só da Home Depot — divulgou resultados no final de fevereiro. Receita de US$ 20,58 bilhões contra expectativa de US$ 20,34 bilhões. Lucro por ação ajustado de US$ 1,98 contra expectativa de US$ 1,94. Vendas comparáveis crescendo 1,3% quando o mercado esperava míseros 0,2%.

Bateu em tudo. Crescimento de mais de 10% em relação ao ano anterior.

E as ações caíram mais de 4% no mesmo dia.

Palmas para Wall Street.


O crime que a Lowe's cometeu

O "pecado" foi simples: o guidance — a projeção de lucro para o ano fiscal cheio — veio em US$ 12,25 a US$ 12,75 por ação. Os analistas queriam ver US$ 12,95. Uma diferença de centavos. Centavos, meu amigo.

E por isso o mercado mandou a ação ladeira abaixo.

Isso é o que Taleb chama de sistema frágil: qualquer sussurro abaixo da expectativa e o castelo de cartas balança. Não importa que a empresa cresceu dois dígitos num mercado que está, nas palavras do próprio CEO Marvin Ellison, "sem muito vento a favor".

Sem vento a favor. Essa é a tradução educada para: o mercado imobiliário americano está travado que nem porta enferrujada.


O problema real: a trava da hipoteca

Aqui está o contexto que a manchete do CNBC não vai te explicar direito.

Nos Estados Unidos, há um fenômeno chamado de lock-in effect — o efeito de aprisionamento. Funciona assim: você comprou sua casa em 2020 ou 2021 com juros de hipoteca a 3% ao ano. Hoje, os juros estão na casa dos 6% a 7%. Se você vender e comprar outro imóvel, sua parcela quase dobra.

Então o americano fica parado. Não vende. Não compra. Não se move.

E quando você não se move, não reforma. Não compra tinta nova. Não troca a janela. Não instala piso. Não chama o profissional para reformar o banheiro.

O CEO da Lowe's foi cirúrgico: "O maior combustível para o setor de home improvement é quando você decide colocar sua casa no mercado. Porque a primeira coisa que você faz é arrumar o jardim, pintar as paredes, consertar a cerca."

Sem transações imobiliárias, o setor anda no ralenti. É simples assim.


Então como a Lowe's cresceu 10%?

Boa pergunta. É aqui que a história fica interessante.

A empresa não ficou esperando o mercado melhorar. Melhorou a experiência digital. Expandiu serviços de instalação. Cortejou os profissionais — os pros, no jargão deles: encanadores, empreiteiros, reformadores que compram em volume e têm margem maior.

Vendas de materiais hidráulicos, esquadrias, tintas — categorias ligadas a reformas estruturais e profissionais — puxaram o crescimento. Nove das 14 categorias de mercadoria foram positivas.

É execução. Não é sorte. Não é narrativa. É trabalho.

Isso é o que separa empresa boa de empresa de PowerPoint.


O que o investidor esperto deveria estar vendo

Quando um setor inteiro está com vento contra — e tanto a Lowe's quanto a Home Depot confirmaram isso publicamente — e uma empresa ainda assim cresce dois dígitos, você deveria estar prestando atenção.

Não na queda de 4% do dia. No ciclo.

O mercado imobiliário americano não vai ficar travado para sempre. Juros caem. Pessoas se aposentam. Famílias crescem. A vida continua acontecendo, com ou sem a permissão do Fed. E quando o ciclo virar, quem já ganhou market share vai colher o dobro.

Buffett tem uma frase que o pessoal repete mas poucos aplicam: "Seja ganancioso quando os outros estão com medo." O mercado imobiliário americano está com medo. A Lowe's está ganhando espaço mesmo assim.

O guidance conservador que assustou o mercado? Ellison chamou de "apropriadamente conservador" num ambiente "muito fluido e imprevisível" — tarifas mudando, juros no ar, eleição no retrovisor.

Isso não é fraqueza. Isso é honestidade. E honestidade de CEO é commodity rara hoje em dia.


A pergunta que fica: você prefere o gestor que promete mundos e fundos e entrega fumaça, ou o que avisa que o caminho é difícil e mesmo assim entrega resultado?

Porque o mercado pune o segundo e aplaude o primeiro.

E depois reclama quando a bolha estoura.