Você clicou pra ler sobre a Alan e deu de cara com um muro de cookies e política de privacidade do Yahoo Finance. Irônico, né? Uma empresa de saúde digital sendo noticiada por um portal que trata seus dados pessoais como se fosse buffet livre de churrascaria.
Mas vamos ao que interessa.
O Fato Cru
A Alan, insurtech francesa de planos de saúde, acaba de levantar US$ 115 milhões em rodada de financiamento. Com isso, a avaliação da empresa ultrapassou os US$ 5,7 bilhões.
Pra quem não conhece: a Alan nasceu em 2016 com a proposta de ser o "anti-plano de saúde". Interface limpa, sem burocracia, tudo digital, sem aquele inferno de ligar pro SAC e ficar 40 minutos ouvindo musiquinha. Opera na França, Espanha e Bélgica. Tem mais de 700 mil membros cobertos, majoritariamente via empresas.
O dinheiro novo veio de investidores como Belfius e outros que já estavam na dança. Rodada secundária, o que significa que parte da grana foi pra bolsos de acionistas antigos que quiseram realizar algum lucro. Detalhe importante que muita gente ignora.
O Circo do Valuation Bilionário
Aqui é onde meu sangue começa a ferver.
US$ 5,7 bilhões de valuation. Vamos colocar em perspectiva: a SulAmérica, antes de ser engolida pela Rede D'Or, valia coisa parecida — e era uma operação com décadas de história, milhões de beneficiários e, pasmem, lucro real.
A Alan? Até onde se sabe publicamente, ainda opera no vermelho. Prometeu breakeven. Todo mundo promete breakeven. O Walter White também prometeu que ia parar de cozinhar metanfetamina "só mais uma vez".
Não estou dizendo que a Alan é fraude. Longe disso. O produto parece bom. A proposta é legítima. Saúde digital é uma tendência real, não modinha de NFT. Mas existe uma diferença enorme entre "empresa boa" e "empresa que vale 5,7 bilhões de dólares".
E essa diferença, meu amigo, se chama dinheiro barato e excesso de capital procurando narrativa.
Skin in the Game — Cadê?
Taleb diria algo simples: quem está arriscando o quê?
Quando um fundo de venture capital coloca US$ 115 milhões numa empresa avaliada em quase US$ 6 bi, o risco é diluído entre dezenas de LPs (limited partners — os investidores do fundo). Se der merda, ninguém perde a casa. Se der certo, os GPs (general partners — quem gere o fundo) ficam com o carry de 20% e saem na Forbes.
É o jogo de sempre: assimetria de incentivos. Quem decide o investimento não é quem paga a conta se der errado. É o modelo que gerou WeWork, Theranos e aquela coleção linda de unicórnios que morreram secos depois de 2022.
A Alan pode ser diferente? Pode. Mas o padrão estrutural é o mesmo.
O Que Isso Significa Pro Investidor Brasileiro
Diretamente? Quase nada. A Alan não é listada em bolsa. Você não compra ação dela na B3 nem na NYSE.
Indiretamente? Muito.
Primeiro, mostra que o apetite por risco em tech europeia voltou. Depois do banho de sangue de 2022-2023, quando valuations de fintechs e insurtechs derreteram 50-70%, o dinheiro está voltando — seletivamente, mas voltando.
Segundo, acende o alerta: se as rodadas privadas estão inflando de novo, pode ser sinal de que o ciclo de exuberância está recomeçando. E quem estudou história sabe como esses ciclos terminam. Não é com champagne.
Terceiro, pra quem acompanha o setor de saúde no Brasil — Hapvida, Rede D'Or, Qualicorp — vale observar o modelo da Alan. A digitalização de planos de saúde vai chegar aqui com força. Quem estiver posicionado cedo, ganha. Quem dormir, fica assistindo o filme passar.
A Pergunta Que Fica
Quando um monte de gente inteligente coloca um monte de dinheiro numa empresa que ainda não provou que gera caixa sustentável, você tem duas possibilidades: ou eles sabem algo que você não sabe, ou estão todos no mesmo barco de confirmação de viés, aplaudindo uns aos outros enquanto a maré sobe.
A maré sempre desce.
A pergunta é: quando ela descer, a Alan vai estar nadando ou vai ser mais uma que aparece pelada na praia?
Porra, eu genuinamente torço pra que seja a primeira opção. O mundo precisa de planos de saúde menos horríveis. Mas torcida não é tese de investimento.
Nunca foi.