Tem uma cena clássica em O Lobo de Wall Street onde o Jordan Belfort, já afundado até o pescoço em merda, olha pra câmera e diz que está tudo sob controle. Os olhos dizem outra coisa. Os números dizem outra coisa. Mas a boca — ah, a boca — continua vendendo o sonho.
Foi mais ou menos isso que aconteceu na sexta-feira com Mike Intrator, CEO da CoreWeave.
O que aconteceu
A CoreWeave, aquela empresa de Nova Jersey que basicamente compra GPUs da Nvidia no cartão de crédito corporativo e aluga pra gigantes como Microsoft e OpenAI, soltou seus números e o mercado reagiu com a sutileza de um soco no estômago: queda de quase 22% nas ações.
O motivo? Duplo. Primeiro, o guidance de receita decepcionou — ou seja, a empresa sinalizou que vai faturar menos do que Wall Street esperava. Segundo, e talvez mais importante, a CoreWeave anunciou que pretende gastar entre US$ 30 bilhões e US$ 35 bilhões em capex (investimentos em infraestrutura) em 2026. O consenso do FactSet era de US$ 26,9 bilhões. A diferença é de quase US$ 8 bilhões a mais do que o mercado havia precificado.
Oito bilhões de dólares. Pra colocar em perspectiva, isso é mais do que o PIB de uns 40 países.
O CEO vai pro palanque
Intrator foi à CNBC defender o plano. O discurso? O de sempre quando a casa tá pegando fogo: "Estamos acelerando intencionalmente. A demanda é gigante. O backlog é enorme. Esse é o momento único de uma geração."
Onde já ouvimos isso antes? Em toda bolha da história. Cada maldita vez.
Olha, não estou dizendo que a demanda por infraestrutura de IA não é real. É. A Nvidia tá imprimindo dinheiro. Datacenters estão lotados. O hype tem substância — até certo ponto. Mas quando o CEO de uma empresa altamente alavancada te diz que a narrativa de dívida é "infundada", você precisa parar e pensar.
Intrator argumentou que o custo de capital da CoreWeave caiu 300 basis points nos últimos 12 meses, o que representaria US$ 700 milhões em economia. Nos últimos dois anos, 600 basis points de queda. Bonito no PowerPoint.
Mas aqui vai a pergunta que ninguém no estúdio da CNBC fez com a devida crueldade: e se o mercado de crédito apertar?
O modelo de negócio que deveria te dar calafrios
Vamos ao básico, traduzindo o economês:
A CoreWeave não fabrica nada. Ela compra chips caríssimos da Nvidia, monta datacenters e aluga capacidade computacional pra um punhado de clientes gigantes. Financia tudo isso com dívida. A receita depende de um grupo minúsculo de hyperscalers — Microsoft e OpenAI na frente da fila.
Isso é o que Nassim Taleb chamaria de um negócio extremamente frágil. Concentração de receita em poucos clientes. Dependência de um único fornecedor de hardware. Modelo financiado por dívida num setor onde a tecnologia muda a cada 18 meses. Se a Microsoft espirra, a CoreWeave pega pneumonia.
O pessoal do JPMorgan foi direto ao ponto: "Se houver aumento de volatilidade econômica, as ações da CRWV provavelmente sofreriam desproporcionalmente devido ao posicionamento risk-off."
Traduzindo: quando o bicho pegar, essa ação vai ser das primeiras a ser jogada pela janela.
O Barclays foi um pouco mais diplomático, dizendo que espera as ações "pausarem nesses níveis" enquanto investidores digerem os novos números de gastos. "Pausar" é um eufemismo bonito pra "ninguém quer pegar essa faca caindo agora."
A real que ninguém quer ouvir
Investir em infraestrutura de IA pode ser uma tese válida. Mas tese válida e empresa específica são coisas muito diferentes. A Cisco era uma tese válida nos anos 90. Comprar Cisco no topo do dot-com em 2000? Vinte e cinco anos depois a ação ainda não voltou àquele patamar ajustado por inflação.
A CoreWeave pode estar certa sobre a demanda. Pode até estar certa sobre os custos de capital caindo. Mas quando você gasta US$ 35 bilhões por ano bancado por dívida, a margem de erro é zero. E margem de erro zero não existe no mundo real — só existe em planilhas de CEO tentando segurar o preço da ação.
Mike Intrator pode acreditar genuinamente no que está vendendo. Mas o mercado não se move na fé. Se move em fluxo de caixa, custo de dívida e, acima de tudo, no medo.
E quando 22% do valor da sua empresa evapora num único dia, talvez — só talvez — a "narrativa" sobre dívida não seja tão infundada assim.
A pergunta que fica: você emprestaria US$ 35 bilhões pra alguém que depende de dois clientes e de chips que ficam obsoletos mais rápido que leite na geladeira?