"O mercado consegue ficar irracional por mais tempo do que você consegue ficar solvente." — John Maynard Keynes

Porra, essa frase nunca envelhece. E ela cabe como uma luva no caso Costco.

O trimestre que ninguém vai lembrar daqui 30 dias

A Costco soltou os números do segundo trimestre fiscal de 2026 na quinta-feira e, olha... foi aquele resultado que não empolga nem decepciona. O tipo de balanço que, se fosse um filme, seria aquele blockbuster de 6.5 no IMDb — ninguém odeia, ninguém ama, e a sala de cinema continua lotada porque não tem nada melhor em cartaz.

Receita total subiu 9,2% na comparação anual, batendo US$ 69,6 bilhões contra os US$ 69,12 bilhões que Wall Street esperava. Lucro por ação ajustado ficou em US$ 4,58, superando o consenso de US$ 4,56.

Bateu a expectativa? Sim. Por uma margem ridícula? Também sim.

No after-hours, a ação mal se mexeu. Normal. Não tinha nada ali pra fazer ninguém levantar da cadeira.

O problema que ninguém quer encarar

Aqui é onde a coisa fica interessante — e onde o circo financeiro mainstream prefere olhar pro outro lado.

As taxas de renovação de membros nos EUA e Canadá caíram de novo. Mais um trimestre. E a gestão da empresa basicamente falou: "vai continuar assim por mais alguns trimestres."

Pra quem não sabe, a Costco não é uma varejista comum. O modelo de negócio inteiro gira em torno das mensalidades dos membros. É ali que a empresa ganha dinheiro de verdade. A margem das vendas em loja é apertada de propósito — o lance é te cobrar pelo "clube" e depois te vender tudo quase no custo.

Então quando as renovações caem, trimestre após trimestre, isso é como um vazamento no casco do navio. Pequeno, mas constante.

A explicação? Uma enxurrada de assinaturas feitas online por gente que provavelmente nunca pisou numa loja Costco. Assinaram por impulso, não viram o apelo completo, deixaram cancelar. É o equivalente financeiro de assinar academia em janeiro e nunca ir.

A taxa de renovação mundial estabilizou, é verdade. Mas nos mercados que realmente importam — EUA e Canadá — a sangria continua.

A cortina de fumaça tecnológica

O CEO Ron Vachris, que já completa dois anos no cargo, trouxe a artilharia tech pro call de resultados. Carteiras digitais, farmácia com pagamento antecipado, tecnologia de pré-scan que permite um funcionário começar a registrar seu carrinho enquanto você ainda tá na fila.

E a cereja do bolo: estações de pagamento automatizado com tempo médio de transação de oito segundos. Oito. Segundos. Se isso funcionar em escala, a experiência dentro do warehouse melhora absurdamente.

Vachris também mencionou que estão trabalhando com as principais empresas de inteligência artificial para garantir que produtos Costco apareçam nas ferramentas de IA. Esperto.

Tudo isso é relevante? Sem dúvida. Resolve o problema de renovação? Ainda não.

O efeito gasolina que pouca gente comenta

O CFO Gary Millerchip trouxe um ponto que eu acho subestimado: quando o preço da gasolina sobe, mais gente vai até a Costco abastecer — e aproveita pra entrar no warehouse. É o velho truque do posto de gasolina como isca.

"Quando a gasolina sobe, nossa proposta de valor ressoa melhor com o membro", disse Millerchip. Traduzindo do economês: inflação na bomba é marketing grátis pra Costco.

Então, compra ou não compra?

A ação sobe 14% no ano. Os dois últimos trimestres de 2025 foram os primeiros declínios consecutivos desde 2022. O pessoal do CNBC Investing Club mantém rating 2 (equivalente a "manter") e subiu o preço-alvo.

Minha leitura? É uma empresa extraordinária com um problema real que está sendo mascarado por momentum de vendas comparáveis fortíssimo — crescimento de 6% a 7% mês após mês. Tráfego e ticket médio subindo juntos. Ganhando market share.

Mas pagar caro por uma ação cujo principal motor de lucro (membership fees) está com o pneu furado nos mercados-chave? Isso exige fé. E fé no mercado financeiro costuma sair cara.

Se a renovação nos EUA e Canadá não estabilizar nos próximos dois trimestres, a narrativa vai mudar. E quando a narrativa muda, meu amigo, quem comprou no topo vira meme.

A pergunta que fica: você está comprando Costco pelo que ela é ou pelo que o mercado quer que ela seja?