Existe uma cena no filme Moneyball em que o Brad Pitt, interpretando Billy Beane, fala algo do tipo: "Adapte-se ou morra." Não é exatamente essa a frase, mas a essência é essa. E é exatamente o que a Dell acabou de fazer diante de uma escassez histórica de memória que está triturando concorrentes.

Vamos ao fato cru.

A Dell reportou lucro ajustado de US$ 3,89 por ação no quarto trimestre fiscal — enquanto o "consenso dos analistas" (aquele bando de gente que erra mais do que acerta e ainda assim ganha bônus gordo) esperava US$ 3,53. Receita de US$ 33,38 bilhões contra uma expectativa de US$ 31,73 bilhões.

Porra. Bateu em tudo.

Mas o número que fez o mercado quase cair da cadeira foi o guidance: a Dell projeta receita entre US$ 138 bi e US$ 142 bi para o fiscal de 2027. O FactSet esperava US$ 124,7 bi. Isso não é "bater expectativa". Isso é dar um tapa na cara do consenso e perguntar: "Mais alguma dúvida?"

A aposta que importa: servidores de IA

A Dell espera que a receita com servidores de inteligência artificial chegue a US$ 50 bilhões em 2027. O dobro do ano anterior. Leia de novo: o dobro.

Enquanto meio mundo fica discutindo se a IA é bolha ou não, se o ChatGPT vai roubar emprego de todo mundo, a Dell está lá, quietinha, montando a infraestrutura que faz o circo funcionar. É tipo aquele cara que não aparece na festa, mas é dono do buffet que serve toda a comida.

Os fabricantes de chips de memória — e aqui estamos falando de HBM (high-bandwidth memory), aquela memória turbinada que a Nvidia, AMD e Google devoram — estão priorizando essa demanda de IA. Resultado? Sobra menos memória para laptops e smartphones. Lei básica de oferta e demanda. Adam Smith mandou lembranças.

O preço da sobrevivência

Aqui vem a parte que o pessoal "growth at all costs" não gosta de ouvir.

A Dell já começou a subir preços dos PCs no ano passado. O CFO David Kennedy disse sem rodeios na call de resultados: a empresa precificou para "compensar" a pressão de custos. Traduzindo do corporativês: "Repassamos pro cliente, sim. E daí?"

Jeff Clarke, COO da Dell, complementou dizendo que estão trabalhando com parceiros de memória para serem "o mais flexíveis e ágeis possível." Linguagem diplomática para: "Estamos jogando xadrez enquanto os outros jogam damas."

O analista Wamsi Mohan, do Bank of America, levantou uma preocupação legítima: será que essa subida agressiva de preços não vai matar a demanda lá na frente? A famosa elasticidade-preço. Mesmo assim, o BofA manteve recomendação de compra e subiu o preço-alvo de US$ 135 para US$ 155.

Ou seja: até quem tem dúvida está comprando. Isso diz muito.

Enquanto isso, na HP...

Quer ver o outro lado da moeda? A HP Inc. bateu mínima de 52 semanas essa mesma semana. A CFO Karen Parkhill revelou um dado assustador: os custos de memória subiram 100% sequencialmente e agora representam 35% do custo de materiais de um PC — o dobro de um ano atrás.

A HP está sangrando. A Dell está surfando.

A diferença? Execução. Posicionamento. Skin in the game.

É a velha história que o Nassim Taleb não cansa de repetir: no longo prazo, não sobrevive quem tem o melhor PowerPoint, sobrevive quem toma decisões difíceis na hora certa. Subir preço é impopular. Apostar pesado em IA quando o mercado ainda questiona é arriscado. Mas é assim que se constrói assimetria.

O que isso significa pra você?

Se você tem Dell em carteira, parabéns — mas cuidado com a euforia de +20% num dia só. Quem compra depois de um gap desse tamanho sem estratégia é o mesmo tipo de pessoa que entra no cassino depois de ver alguém ganhar no blackjack.

Se você não tem, a pergunta é outra: você está prestando atenção em quem constrói a infraestrutura da IA, ou está hipnotizado pelos nomes óbvios?

Buffett sempre disse: numa corrida do ouro, venda pás.

A Dell está vendendo pás de US$ 50 bilhões. E você, está comprando o quê?