Sabe aquela cena clássica de filme de ação onde o cara compra a mansão mal-assombrada achando que vai reformar e revender com lucro? Pois é. A Dick's Sporting Goods fez exatamente isso — só que a mansão se chama Foot Locker, custou US$ 2,5 bilhões, e os fantasmas são lojas deficitárias em shoppings decadentes nos quatro cantos do mundo.

O trimestre foi bom. O futuro, nem tanto.

Vamos ao que interessa. A Dick's reportou os resultados do quarto trimestre fiscal (encerrado em janeiro de 2026) e, na superfície, parecia champagne:

  • Lucro por ação ajustado: US$ 3,45 vs. US$ 2,87 esperado
  • Receita: US$ 6,23 bilhões vs. US$ 6,07 bilhões esperado

Bateu as estimativas de Wall Street em ambas as linhas. Bonito, né?

Agora vem a porrada: o lucro líquido despencou 57%. De US$ 300 milhões para US$ 128 milhões. E quando a empresa olhou pra frente e deu o guidance para o ano fiscal de 2026, o mercado engoliu seco: lucro ajustado entre US$ 13,50 e US$ 14,50 por ação, abaixo dos US$ 14,67 que os analistas esperavam.

Traduzindo do economês: "Pessoal, compramos um problemão e vai demorar pra arrumar essa merda."

A digestão da Foot Locker está sendo pesada

A receita cresceu 60% no trimestre. Impressionante? Só se você ignorar que esse salto vem quase inteiramente da incorporação da Foot Locker — não de crescimento orgânico. É como um cara que engordou 30 quilos e diz que "ganhou massa".

A realidade é que a Foot Locker veio com uma herança maldita: estoque encalhado, lojas improdutivas em malls moribundos e uma marca que vinha perdendo relevância há anos. Desde que fechou a aquisição, a Dick's já fechou 57 lojas globalmente entre Foot Locker, Champs, Kids Foot Locker e WSS.

Os custos totais de reestruturação? Entre US$ 500 milhões e US$ 750 milhões. Desses, US$ 390 milhões já foram registrados no fiscal 2025. O resto vem agora.

Ed Stack, chairman executivo da Dick's, disse à CNBC que o trabalho de "ajustar o tamanho" da Foot Locker está "basicamente concluído". E emendou com uma frase que só quem já gerenciou varejo entende: "No varejo, você nunca termina de limpar a garagem."

Porra, Ed. Essa é boa.

A tese por trás da loucura

Olha, não vou dizer que a aquisição é burra. Na verdade, a lógica estratégica tem fundamento — e é aqui que a coisa fica interessante para quem pensa como investidor e não como torcedor.

A Dick's, ao engolir a Foot Locker, se tornou um dos maiores distribuidores de Nike, Adidas e New Balance do planeta. Isso significa poder de barganha monstruoso com as marcas, num momento em que essas empresas de athleticwear estão tentando depender menos de atacadistas. Ter escala virou questão de sobrevivência.

Além disso, a Foot Locker traz algo que a Dick's não tinha: presença internacional e acesso a um consumidor diferente — mais jovem, mais urbano, mais ligado em sneaker culture.

A questão nunca foi "se" fazia sentido. A questão é quanto vai custar arrumar a casa — e se o mercado tem paciência pra esperar.

O programa piloto que pode ser a virada

A Dick's está testando um conceito chamado "Fast Break" em 11 lojas Foot Locker — com produtos redesenhados, layout novo e uma curadoria mais agressiva. Segundo a empresa, os resultados iniciais são de "performance excepcional".

Isso me lembra o que Howard Schultz fez quando voltou à Starbucks: parou tudo, fechou lojas, reformulou a experiência. Deu certo. Mas também levou anos.

A Dick's promete que a virada nos comparáveis da Foot Locker começa no back-to-school deste ano. Veremos. No varejo, promessa é dívida — e dívida de varejista tem juros compostos.

O que fica pra você

Se você tem ou está de olho em DKS, a pergunta que precisa fazer é simples: você acredita que essa gestão consegue transformar uma marca decadente numa máquina de lucro, enquanto absorve centenas de milhões em custos de integração, num ambiente macro incerto?

Porque o mercado claramente está com um pé atrás. E quando Wall Street fica com um pé atrás, costuma pisar no freio com os dois.

A Dick's fez a aposta. Agora precisa provar que não comprou só uma garagem cheia de tranqueira — mas que sabe construir algo com ela.

Skin in the game, Ed. Estamos de olho.