Existe uma ironia deliciosa quando a casa de apostas reclama que os apostadores perderam demais.
Leia de novo. Não, você não leu errado.
Peter Jackson, CEO da Flutter Entertainment — a empresa-mãe do FanDuel, maior plataforma de apostas esportivas dos EUA — foi à CNBC explicar o trimestre desastroso e soltou essa pérola: "É justo dizer que nem tudo saiu do nosso jeito no quarto trimestre."
Traduzindo do economês corporativo pra linguagem de gente: os apostadores perderam tanto que ficaram de saco cheio, largaram o app e pararam de alimentar a máquina de receita da Flutter. É como o dono de um cassino reclamando que o jogador quebrou rápido demais e foi embora antes da sobremesa.
Bem-vindo ao circo das apostas esportivas, onde até a banca chora.
Os números que fizeram Wall Street engasgar
Vamos ao que interessa. A Flutter reportou resultados do quarto trimestre de 2025 na quinta-feira e errou em praticamente todas as métricas que Wall Street acompanha:
- Receita: US$ 4,74 bilhões vs. expectativa de US$ 4,97 bilhões (LSEG)
- Lucro por ação ajustado: US$ 1,74 vs. US$ 1,95 esperados
- EBITDA ajustado: US$ 832 milhões vs. US$ 893 milhões (StreetAccount)
O papel caiu quase 7% no after-market. E olha que a receita cresceu 25% ano contra ano. Num mundo normal, 25% de crescimento é motivo de champagne. Mas quando o mercado já precificou 30%+, o que sobra é ressaca.
E tem mais: o guidance pra 2026 veio entre US$ 17,75 bilhões e US$ 19,05 bilhões. O consenso dos analistas era de US$ 19,34 bilhões. Ou seja, a própria empresa está dizendo: "Pessoal, abaixem as expectativas."
O paradoxo da casa de apostas
Aqui mora a parte que ninguém comenta nos relatórios bonitinhos dos analistas sell-side.
O modelo de negócio das plataformas de apostas esportivas tem um bug de design que nenhum MBA resolve: quando o apostador perde muito, ele desiste. A galinha dos ovos de ouro morre de inanição.
Pense no FanDuel como o Walter White de Breaking Bad — um império construído sobre o vício e a esperança irracional do próximo cara que acha que "dessa vez vai". Só que quando a blue meth é forte demais e o cliente some do mapa, até o Heisenberg fica sem faturamento.
É diferente de um Netflix ou Spotify, onde o cara paga a assinatura e esquece. No mundo das apostas, o engajamento depende do apostador sentir que tem chance. Se ele perde cinco apostas seguidas no NFL e no NBA, ele vai fazer o quê? Abrir o app pra sofrer mais? Porra, nem masoquista aguenta.
O que o CEO não disse (mas deveria)
Jackson tentou mudar o foco durante a call de resultados, falando sobre como os mercados de previsão (prediction markets) vão impulsionar a legalização de apostas esportivas em mais estados americanos. E garantiu que não há evidência de que esses mercados estejam canibalizando o negócio de sportsbook.
Conveniente, não?
É a velha tática corporativa: quando o presente é feio, venda o futuro. "Olha, o trimestre foi ruim, mas o endereçável vai crescer!" Nassim Taleb chamaria isso de narrative fallacy — a necessidade humana de costurar uma história bonita pra justificar dados desconfortáveis.
A verdade nua e crua é que a Flutter precisa resolver um problema estrutural: como manter o apostador engajado sem matá-lo financeiramente rápido demais. É o dilema clássico de qualquer negócio baseado em extração: se você extrai rápido demais, a mina seca.
Skin in the game
Se você tem FLUT na carteira — ou está pensando em comprar na queda — faça a si mesmo uma pergunta honesta: você entende a dinâmica comportamental do apostador médio americano? Sabe quanto custa adquirir um novo cliente nesse mercado insanamente competitivo entre FanDuel, DraftKings e Bet365?
Porque o que aconteceu nesse trimestre não é um "trimestre ruim". É um sinal estrutural de que o crescimento desenfreado do setor de apostas esportivas nos EUA pode ter um teto mais baixo do que o mercado precificou.
25% de crescimento de receita e o papel cai 7%. Isso te diz tudo sobre as expectativas embutidas nesse preço.
Quando até a banca perde, talvez seja hora de repensar quem realmente está apostando aqui — se é o jogador no app ou o investidor segurando a ação.