Tem uma cena no filme Up in the Air em que o George Clooney viaja o país inteiro demitindo gente. Ele faz isso com um sorriso profissional, um aperto de mão e um pacotinho de benefícios. É frio, é eficiente, é corporativo.
Agora imagina o Clooney substituído por um algoritmo.
É mais ou menos isso que o Jack Dorsey — sim, o cara que criou o Twitter e fundou a Block (antiga Square) — acabou de fazer. Demitiu 40% da força de trabalho da Block. Não 4%. Não 14%. Quarenta por cento. Quase metade da empresa. E o motivo? Inteligência artificial.
O Recado Sem Filtro
Dorsey não veio com aquele papo corporativo de "reestruturação estratégica para otimização de sinergias". Não. O cara foi direto: a IA já consegue fazer o que muita gente faz lá dentro. E ele não acha que isso é exclusividade da Block. Na visão dele, a maioria das empresas vai fazer cortes semelhantes nos próximos 12 meses.
Porra, releia isso.
O fundador de uma empresa de tecnologia financeira listada em bolsa, que conhece o Vale do Silício por dentro, está dizendo em voz alta aquilo que os CEOs sussurram nos jantares fechados: a IA não vai substituir empregos "um dia". Ela já está substituindo. Agora.
O Que Isso Significa de Verdade
Vamos sair do teatro das manchetes e entrar na realidade.
A Block não é uma startup de garagem. É uma empresa de capital aberto, com operações de pagamento, empréstimos, Cash App, e até mineração de Bitcoin. Quando uma empresa desse porte corta 40% do quadro, não é decisão de impulso. É um cálculo frio: custou X manter essa gente, a IA entrega Y pelo mesmo resultado, e Y < X. Ponto.
Isso é Nassim Taleb na veia. Skin in the game. Dorsey não está num palco de TED Talk filosofando sobre o futuro do trabalho. Ele está demitindo gente. É a diferença entre o cara que lê sobre natação e o cara que pula na água gelada.
E aqui mora o dado mais perturbador da declaração dele: ele acredita que a maioria das empresas vai seguir esse caminho no próximo ano.
Se ele estiver certo — e convenhamos, o cara tem um histórico razoável de enxergar curvas antes dos outros — estamos diante de uma onda de demissões em massa disfarçada de "transformação digital".
O Elefante na Sala
Sabe o que ninguém no mainstream financeiro quer discutir abertamente? Que essa onda de IA generativa, de automação de tarefas cognitivas, não é como a revolução industrial. Naquela época, máquinas substituíram braços. Agora, algoritmos estão substituindo cérebros. Analistas, programadores juniores, redatores, designers, atendentes, gerentes de projeto.
A classe média que vive de trabalho intelectual repetitivo está na mesma posição dos operários de fábrica em 1890. Só que ninguém avisou.
E o mercado? O mercado adora. Corte de custos, margem maior, eficiência operacional. As ações da Block provavelmente vão reagir bem a isso. Wall Street sempre aplaude quando a guilhotina cai sobre a folha de pagamento.
A Pergunta Que Fica
Warren Buffett sempre disse que você só descobre quem está nadando pelado quando a maré baixa. A maré da IA está subindo, não baixando — mas o efeito é o mesmo. Está expondo quem é realmente essencial e quem era só volume.
Jack Dorsey fez a primeira grande aposta pública e explícita: cortou quase metade da empresa apostando que a máquina faz melhor e mais barato.
A questão não é se ele está certo ou errado. A questão é: se o CEO da sua empresa — ou você mesmo, como empreendedor — tivesse que fazer a mesma conta amanhã, quanto do seu time sobreviveria?
Mais importante ainda: você sobreviveria?
Porque o próximo Jack Dorsey pode ser o seu chefe. E o próximo memo de demissão pode ter o seu nome.
Durma com essa.