Jack Dorsey acordou e escolheu violência.

O cara que fundou o Twitter — e depois perdeu o controle da criança — agora comanda a Block, empresa mãe da Square, aquela fintech que processa pagamentos. E a decisão da vez? Cortar 4.000 empregos. Quase um terço da empresa inteira.

A justificativa oficial? "Avanços em inteligência artificial."

Porra. Que conveniente.

O roteiro já é conhecido

Olha, eu não sou contra demissão. Empresa não é creche. Se tem gente sobrando, corta. Faz parte do jogo capitalista e quem diz o contrário nunca assinou a frente de um cheque de folha de pagamento.

Mas usar "IA" como muleta narrativa pra justificar reestruturação é a nova moda do Vale do Silício. É o equivalente corporativo de dizer "não é você, sou eu" num término de relacionamento.

Lembra do filme Up in the Air? O George Clooney voava pelo país demitindo gente com um sorriso no rosto e um script ensaiado. A diferença é que agora o script inclui as palavras "machine learning" e "automação de processos".

A Block vinha inchada. Isso é fato. A empresa cresceu feito balão de festa durante a pandemia — contratou como se não houvesse amanhã, surfou a onda de pagamentos digitais, flertou pesado com Bitcoin, e agora? Agora a conta chegou.

O que está por baixo do pano

Vamos ao que interessa, sem o filtro de relações públicas.

A Block tem enfrentado pressão regulatória séria. A Cash App, carro-chefe da empresa, está no radar de reguladores americanos por questões de compliance e lavagem de dinheiro. O crescimento de receita desacelerou. A aposta em Bitcoin — que Dorsey vendia como o futuro da civilização — não entregou o retorno prometido.

Quando a receita não cresce no ritmo que Wall Street exige, o que sobra? Cortar custo. E nada corta custo mais rápido do que mandar gente embora.

A IA é o pretexto perfeito. É moderno. É inevitável. Ninguém questiona. "Ah, mas a IA vai fazer o trabalho de três pessoas." Talvez. Talvez não. Mas o mercado adora ouvir isso. A ação sobe, os analistas aplaudem, e os 4.000 que ficaram sem emprego? Bem, esses que se reinventem.

É o velho jogo de sempre com roupa nova.

Skin in the game — ou a falta dele

Aqui entra o Taleb, como sempre.

Jack Dorsey é bilionário. Ele vai continuar bilionário amanhã, depois de amanhã e no próximo trimestre. Se a estratégia de IA der errado, ele ajusta o discurso, contrata de volta metade das pessoas com salários menores, e a vida segue.

Quem tem skin in the game de verdade aqui são os 4.000 funcionários que acordaram de manhã, abriram o e-mail e descobriram que foram substituídos por um prompt do ChatGPT.

Isso não é inovação. Isso é engenharia financeira embalada em linguagem tecnológica.

Warren Buffett — que Dorsey não é, nem de longe — sempre disse que você descobre quem está nadando pelado quando a maré baixa. A maré do dinheiro fácil, juros zero e crescimento infinito de fintechs baixou. E a Block estava sem calção.

O sinal que ninguém quer ver

Essa demissão na Block não é um caso isolado. É sintoma.

Meta, Google, Amazon, Microsoft — todo mundo cortou nos últimos dois anos. Agora a IA virou o álibi universal. E a pergunta incômoda que ninguém no mercado quer fazer é: se a IA realmente substitui toda essa gente, por que as margens de lucro dessas empresas não estão explodindo?

Porque a verdade é que muitos desses cortes são sobre disciplina financeira tardia, não sobre revolução tecnológica. Contrataram demais na euforia, agora demitem no pânico. É o ciclo de sempre, desde que o capitalismo existe.

A IA vai mudar o mundo? Vai. Sem dúvida. Mas não na velocidade que os press releases de demissão em massa querem te fazer acreditar.

E você nisso tudo?

Se você trabalha em tech, fintech, ou qualquer empresa que está "abraçando a IA" — acorde. Sua cadeira não é garantida. Nunca foi, aliás, mas agora o CEO tem um argumento socialmente aceitável pra te substituir.

Se você investe na Block ou em qualquer empresa do setor — pare de olhar o discurso e olhe os números. Receita. Margem. Fluxo de caixa livre. O resto é teatro.

Jack Dorsey não é vilão nem herói. Ele é só mais um CEO bilionário fazendo o que CEOs bilionários fazem: protegendo o próprio patrimônio enquanto vende uma narrativa bonita pro mercado.

A pergunta é: você vai engolir a narrativa ou vai pensar por conta própria?