Tem uma cena clássica no Breaking Bad em que Walter White, cercado de cinzas e destroços, ainda tenta convencer todo mundo de que está no controle da situação.
Eu me lembro dessa cena toda vez que leio um comunicado de uma empresa de carro elétrico perdendo bilhões e chamando o resultado de "alinhado com nossa trajetória de crescimento".
A Lucid Group fez exatamente isso na última terça-feira.
O Número Que Não Mente
Prejuízo por ação de US$ 3,62. O mercado esperava US$ 2,62. Ou seja, a Lucid não errou a meta — ela passou por cima dela de caminhonete.
A receita? Aí sim, uma surpresa positiva: US$ 523 milhões contra os US$ 468 milhões esperados. Um "beat" de 12% no faturamento. Alguém no departamento de marketing foi comemorar.
Mas espera. Você pode vender mais do que o previsto e ainda assim afundar mais fundo em prejuízo. É exatamente o que aconteceu. Receita acima do esperado, perda muito acima do esperado. Isso tem nome: é uma empresa que ainda não descobriu como ganhar dinheiro com o que vende.
Em 2025 inteiro, a Lucid registrou prejuízo líquido de US$ 2,7 bilhões. Praticamente igual ao prejuízo de 2024. Cresceu a receita em 68%, quase dobrou a produção — e não moveu um centavo a agulha do buraco que continua igual.
O CEO Interino e a Arte de Chamar Desaceleração de "Conservadorismo"
Marc Winterhoff, CEO interino — já começa aqui — disse ao mercado que a meta de produção para 2026 é entre 25.000 e 27.000 unidades. Isso seria um crescimento de 40% a 51% sobre os números de 2025.
"Saudável, mas não exagerado."
Olha que requinte de linguagem. Em 2025 eles quase dobraram a produção. Em 2026, planejam crescer menos da metade disso. E apresentam isso com orgulho, como se ter pisado no freio fosse uma decisão estratégica sofisticada e não uma capitulação diante da realidade.
Ah, e sobre a produção de 2025? Aqueles 18.378 veículos anunciados? Revisados para 17.840. Quinhentos e trinta e oito carros que "não completaram certos procedimentos internos de validação". Parece coisa de auditoria de quarta série.
O Elefante Saudita na Sala
Existe um detalhe que os analistas de terno adoram ignorar quando falam da Lucid: a empresa sobrevive porque o fundo soberano da Arábia Saudita (PIF) continua injetando dinheiro.
Sem esse oxigênio externo, a Lucid não existia mais. É uma empresa de carros elétricos de luxo que ainda não é lucrativa, opera num mercado que está desacelerando, demitiu 12% dos funcionários americanos há menos de uma semana, e terminou 2025 com US$ 4,6 bilhões em liquidez.
Esse caixa é o que separa a Lucid de virar um estudo de caso de MBA sobre o que não fazer.
O CFO chamou o caixa de "forte". Tecnicamente está certo. Com US$ 2,7 bilhões de prejuízo por ano, você tem uns dois anos antes de precisar de mais uma injeção ou de fechar as portas.
Winterhoff disse que não planeja mais cortes. Bom saber. Mas CEOs interinos dizem muita coisa.
O Que Vem Por Aí (Segundo Eles)
- Um veículo médio mais barato começando a ser produzido no final de 2026 — mas não vai impactar os números deste ano.
- O SUV Gravity deve ser o carro mais produzido e vendido da empresa em 2026.
- A Lucid planeja lançar seus primeiros robotáxis com parceiros já anunciados.
- Um investor day em 12 de março em Nova York, onde devem tentar parecer mais confiantes do que seus resultados justificam.
Robotáxi, por sinal. Em 2026. Com uma empresa que ainda não sabe quando vai ser lucrativa. É o tipo de narrativa que faz analista de banco de investimento brilhar os olhos e fazer a apresentação de PowerPoint mais bonita da semana.
Nassim Taleb tem uma frase que eu carrego: "Se você quer prever o comportamento de alguém, veja o que ele arrisca, não o que ele fala."
O CEO interino da Lucid está falando em crescimento saudável e eficiência. O balanço está falando em bilhões queimados sem data para lucrar.
Um dos dois está mentindo.
Você decide qual.