Tem uma cena clássica em O Lobo de Wall Street onde o Jordan Belfort explica que ninguém sabe se a ação vai subir ou descer — o que importa é a comissão. Troca "ação" por "ETF temático" e você tem o retrato perfeito do que está acontecendo agora no mercado americano de fundos de índice.
A festa dos copycats está acabando. E não sou eu que estou dizendo.
O cara que vive de ETF admitindo: nem tudo cabe num ETF
Mike Akins, fundador da ETF Action — um sujeito que literalmente paga as contas dele com o ecossistema de ETFs — foi à CNBC esta semana e soltou uma verdade inconveniente:
"O wrapper de ETF é mais eficiente pra muita coisa. Não pra tudo."
Leia de novo. O cara que é "ETF first" está dizendo que enfiar tudo dentro de um ETF — incluindo ativos privados, estratégias de opções exóticas, covered calls de todo sabor e cor — não faz o menor sentido em muitos casos.
Isso, meus amigos, é o que o Taleb chamaria de skin in the game falando mais alto que o marketing. Quando quem vende o produto admite que o produto tem limites, presta atenção.
A enxurrada de lixo temático
O que aconteceu nos últimos anos foi o seguinte: ficou absurdamente fácil lançar um ETF. Akins mesmo confirmou: "A capacidade de colocar um ETF no mercado virou mainstream. É super fácil se você tem o parceiro certo."
E quando algo fica fácil demais, a qualidade vai pro ralo. É a Lei da Gravidade Financeira.
O resultado? Uma enxurrada de ETFs copycat — fundos de covered call, buffer strategies, ETFs de "proteção" que são basicamente a mesma merda com rótulo diferente. Dezenas de gestoras lançaram produtos quase idênticos correndo atrás do mesmo investidor, do mesmo tema, da mesma narrativa.
É como se todo mundo abrisse hamburgueria gourmet no mesmo quarteirão. No começo, parece que tem mercado pra todo mundo. Depois, a realidade chega com a delicadeza de um caminhão de lixo.
"Não dá pra ter tantas estratégias rastreando o mesmo ponto," disse Akins, sem rodeios.
A consolidação que vem aí — e quem vai se ferrar
Akins prevê uma consolidação séria nas estratégias "não tradicionais" de ETF até o fim de 2026. Traduzindo do economês: muitos desses fundos vão murchar, perder ativos e eventualmente fechar.
Os vencedores serão poucos. Os perdedores, muitos.
E aqui vem a parte que deveria tirar o sono de quem investe nesses produtos de nicho sem pensar duas vezes: a responsabilidade muda de mão. Quando você compra um fundo temático ultra-específico — reshoring industrial, infraestrutura, a modinha da vez — o peso do timing sai do gestor e cai inteiro no seu colo.
"Se você está investindo em estratégias de nicho, seu sucesso deixa de depender do gestor e passa a depender da sua capacidade de usar o produto no momento certo," explicou Akins. "A responsabilidade é sua."
Porra, isso é importante. O investidor que compra ETF temático achando que é a mesma coisa que comprar um BOVA11 da vida está brincando com fogo. ETF de nicho exige tese, timing e, principalmente, a humildade de saber quando sair.
A inteligência artificial que ninguém está vendo
Enquanto todo mundo se empolgava com ETFs sobre inteligência artificial, a verdadeira revolução está acontecendo em silêncio: ETFs geridos por inteligência artificial.
Aga Kuplinska, da Tidal Financial Group, confirmou que já existem produtos na plataforma deles que são "AI-enhanced" ou "AI-managed" — e que isso é só a ponta do iceberg.
Percebe a ironia? O mercado gastou dois anos empacotando ações de empresas de IA em ETFs temáticos enquanto o verdadeiro uso disruptivo da tecnologia está no processo de investimento, não no tema do fundo.
É como se, na época da corrida do ouro, todo mundo vendesse pás com adesivo "OURO" — e ninguém pensasse em usar a pá pra cavar de verdade.
O recado que fica
O mercado de ETFs não vai parar de inovar. Isso é fato. Mas inovação sem critério é só barulho. E barulho, no mercado financeiro, geralmente significa que alguém está tentando vender algo que você não precisa.
Da próxima vez que você vir um ETF novo e brilhante prometendo exposição à "mega tendência" do momento, faça a si mesmo a pergunta que o Akins fez em rede nacional: quando o tema chega ao mercado, será que o trade já não acabou?
Se a resposta te deixar desconfortável, talvez esse seja exatamente o sinal que você precisava.