Tem uma cena no Coringa em que o Arthur Fleck diz: "A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse." Pois é. A pior parte do mercado de mídia americano é que todo mundo age como se essas fusões bilionárias fossem sobre "criar valor pro consumidor" — quando o jogo é de poder, dinheiro soberano e ligações políticas.
Vamos ao fato.
A Netflix saiu de cena
Na quinta-feira, a Warner Bros. Discovery anunciou que a oferta revisada da Paramount Skydance — US$ 31 por ação — era superior à proposta da Netflix. Ted Sarandos e Greg Peters, co-CEOs da Netflix, disseram que não era mais "financeiramente atrativo" cobrir a oferta.
Traduzindo do economês: a Netflix olhou o preço, olhou o risco regulatório monstruoso que teria pela frente, e falou "foda-se, não vale a dor de cabeça."
E olha, faz sentido.
Juntar Netflix com WBD seria criar um Leviatã do streaming. Netflix já é o gorila de 800 libras da sala. Adicionar a HBO Max (131,6 milhões de assinantes no fim de 2025) e a Paramount+ (78,9 milhões) debaixo do mesmo guarda-chuva? Até o Trump — que normalmente não liga pra regulação de merda nenhuma — disse lá em dezembro que o negócio "poderia ser um problema." Depois voltou atrás, jogando a bola pro Departamento de Justiça, como quem lava as mãos estilo Pilatos.
A Paramount entrou com tudo (e com dinheiro pesado)
A Paramount não brincou. Subiu a oferta de US$ 30 pra US$ 31 por ação. Colocou na mesa uma multa de US$ 7 bilhões caso o deal não passe na aprovação regulatória. E já pagou os US$ 2,8 bilhões de breakup fee que a WBD devia à Netflix por ter abandonado o acordo anterior.
Leu direito? Já pagou. Quase 3 bilhões de dólares jogados na mesa antes mesmo do negócio ser aprovado. Isso é skin in the game no sentido mais visceral que o Taleb poderia imaginar.
Mas de onde vem essa grana toda?
Aí a história fica interessante — e um pouco suja.
O elefante árabe na sala
A proposta da Paramount tem sido criticada porque parte do financiamento vem de fundos soberanos da Arábia Saudita, Abu Dhabi (Emirados Árabes) e Catar. A empresa já disse que esses fundos abriram mão de todos os direitos de governança, incluindo representação no conselho. Mas convenhamos: quando um fundo soberano do Golfo Pérsico coloca bilhões num deal, a ideia de que eles não vão ter nenhuma influência é, no mínimo, ingênua.
A procuradora-geral da Califórnia, Rob Bonta (democrata), já avisou na quinta à noite: "isso não é um negócio fechado." O Departamento de Justiça da Califórnia tem uma investigação aberta sobre a transação.
E a senadora Elizabeth Warren? Chamou a fusão de "desastre antitruste que ameaça preços mais altos e menos opções para as famílias americanas." Clássico Warren. Mas dessa vez ela não está totalmente errada.
O fator Trump (porque sempre tem um fator Trump)
Aqui entra o tempero político. David Ellison, CEO da Paramount Skydance, é filho de Larry Ellison — cofundador da Oracle e figurinha carimbada no círculo de relações do Trump. Jared Kushner, genro do presidente, está apoiando financeiramente o deal da Paramount, segundo documentos arquivados na SEC.
Conecte os pontos. Não preciso desenhar.
Analistas da Raymond James disseram na sexta-feira que a fusão Paramount-WBD apresenta "risco regulatório consideravelmente menor" do que a proposta da Netflix. E é verdade: duas empresas de mídia tradicional se juntando é menos assustador pro governo do que o maior streamer do planeta engolindo mais um conglomerado.
O que isso significa na prática?
Estamos vendo a consolidação inevitável da mídia americana. O modelo de "cada empresa tem seu streaming" está morrendo. Não dá pra ter 47 plataformas, cada uma queimando bilhões em conteúdo original, sem ninguém ganhar dinheiro de verdade (tirando a Netflix, que já cruzou a escala necessária).
A questão não é se vai ter consolidação. É quem vai ficar com os pedaços — e quem vai pagar o preço quando os reguladores resolverem mostrar serviço.
Paramount tem as conexões políticas. Tem o dinheiro árabe. Tem a multa bilionária de compromisso. Mas tem também um Congresso rachado e uma procuradora-geral da Califórnia com fome de holofote.
Dinheiro soberano do Golfo financiando a fusão de dois gigantes da mídia americana, com o genro do presidente apoiando o deal. Me diz: isso te parece um mercado livre funcionando, ou um episódio de House of Cards que o roteirista descartou por ser inverossímil demais?