Tem uma cena clássica no Gladiador onde o público no Coliseu está em delírio, aguardando ansioso pelo próximo espetáculo de sangue. É exatamente assim que Wall Street está hoje — grudada na tela, esperando Jensen Huang aparecer no palco e decretar mais um trimestre absurdo da Nvidia.

E olha, a expectativa tem fundamento. Não é hype vazio dessa vez.


O número que o mercado quer ouvir

Os analistas estão esperando receita de US$ 66,2 bilhões no quarto trimestre fiscal, com lucro por ação ajustado de US$ 1,53. Para quem perdeu a referência: há um ano, a receita era de US$ 39,3 bilhões. Estamos falando de crescimento de 68% ano contra ano.

Não é um trimestre bom. É o décimo primeiro trimestre consecutivo com crescimento acima de 55%.

Alguém me explica outra empresa no planeta com esse tipo de consistência em cima de uma base já gigantesca? Eu espero.


Por que isso acontece? Simples: todo mundo precisa da Nvidia

Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft — o quarteto dos hyperscalers — reportaram resultados recentemente e todos fizeram a mesma promessa: vamos gastar mais, muito mais, em infraestrutura de IA.

O capex combinado dessas quatro empresas em 2026 pode se aproximar de US$ 700 bilhões.

Setecentos bilhões, porra.

E uma fatia gigantesca disso vai diretamente para o bolso da Nvidia, que controla o mercado de chips para IA com a força de um monopólio de fato. As GPUs da empresa — aquelas placas gráficas que um dia foram usadas pra rodar Call of Duty — hoje são o coração dos data centers que treinam os modelos de linguagem que estão revolucionando tudo.

O negócio de data center da Nvidia deve crescer 70% para US$ 60,7 bilhões só neste trimestre. Isso representa aproximadamente 90% de toda a receita da empresa.

Quando uma empresa encontra o produto certo, no momento certo, para o cliente certo, não tem análise de gráfico que explique o que acontece. É fundamento puro. É o Buffett de braços abertos dizendo "eu sabia".


O detalhe que o CNBC citou mas que o mercado vai ignorar

Aqui está onde fica interessante. Onde a análise rasa termina e a real começa.

Memória.

Existe uma escassez global de memória porque a demanda por IA explodiu e os fabricantes simplesmente não conseguem acompanhar. O presidente de negócios da Micron disse literalmente em janeiro que a demanda "superou em muito nossa capacidade de fornecer".

Para a Nvidia, memória não é detalhe — é componente crítico dos sistemas de IA. E quando o custo de um insumo sobe, tem duas saídas: ou você repassa pro cliente, ou você absorve e vê sua margem derreter.

Na última teleconferência de resultados, a Nvidia projetou margem bruta de 75% para esse trimestre. Os analistas da Cantor esperam que venha um pouco acima disso.

Mas "um pouco acima" pode não ser suficiente para o mercado, que está com a régua lá no topo.

Se a margem vier abaixo de 75%, não importa que a receita bateu recorde histórico. O mercado vai gritar que a história acabou, que Jensen perdeu o controle dos custos, que a bolha estourou.

Isso é o circo. E o circo é previsível assim.


O que Taleb diria sobre comprar Nvidia agora

Nassim Taleb tem um conceito que chama de fragilidade — ativos e sistemas que são destruídos pela volatilidade. E tem o oposto: antifrágil — o que cresce com o caos.

A Nvidia operacionalmente é antifrágil. Quanto mais o mundo apostou em IA e gerou incerteza sobre quem vai ganhar essa corrida, mais dinheiro foi parar no colo da empresa que vende as pás durante a corrida do ouro.

Mas o preço da ação da Nvidia? Esse é outro papo. Quem comprou no pico de euforia tem que ter estômago de ferro para aguentar as correções que vêm junto com qualquer resultado que não seja perfeito.

Skin in the game, como diria o Taleb. Quem está falando pra você comprar tem dinheiro em jogo ou é mais um analista de terno dando palpite com o dinheiro dos outros?


A Nvidia vai reportar depois do fechamento. O mercado vai reagir. Vai ter alguém dizendo que foi incrível e alguém dizendo que foi o começo do fim.

A pergunta real não é o que o resultado vai ser — é o que você vai fazer com a informação depois que todo mundo já souber.

Porque nessa hora, o dinheiro já mudou de mão.