Senta aí que essa é boa.
Você está rolando seu feed de notícias econômicas. Google News, seção "Economy". Aparece uma manchete chamativa: algo sobre MacBooks comprometidos, uma enquete do 9to5Mac, parece relevante. Talvez envolva segurança de dados, supply chain, alguma coisa que mexa com a Apple — empresa de 3 trilhões de dólares de market cap.
Você clica.
E o que aparece?
Uma tela de consentimento de cookies.
Isso. Só isso. Nenhum conteúdo. Nenhuma notícia. Nenhum parágrafo. Nenhuma análise. Nada. Zero. O grande vazio existencial do jornalismo digital embalado numa parede de "Accept all" e "Reject all" em 47 idiomas, incluindo isiZulu e ລາວ.
Porra, que beleza.
O sintoma de uma doença maior
Isso aqui não é sobre um MacBook. Não é sobre a Apple. É sobre algo muito mais grave que afeta diretamente quem tenta tomar decisões financeiras baseadas em informação de qualidade.
O ecossistema de notícias virou um moedor de carne.
Manchetes são escritas para gerar clique. O conteúdo por trás delas pode ser um artigo de verdade, um post requentado, ou — como neste caso glorioso — literalmente nada. Uma página de consentimento de privacidade que nem carrega o artigo original.
E o Google News, esse curador todo-poderoso que decide o que 2 bilhões de pessoas veem quando abrem o celular de manhã, empurrou isso como "notícia de economia".
Lembra daquela cena em Matrix onde o Morpheus pergunta ao Neo: "Você quer a pílula azul ou a vermelha?" Pois bem, aqui te ofereceram as duas pílulas e as duas eram de farinha.
O custo real da desinformação para o investidor
Taleb tem uma frase que eu repito até cansar: "O maior risco é aquele que você não vê."
E o risco que a maioria dos investidores não enxerga é o lixo informacional que consome todo santo dia. Não estou falando de fake news óbvia — tipo aquele tio do WhatsApp mandando que o dólar vai a R$ 2,00. Estou falando de algo mais insidioso.
Estou falando do ruído constante disfarçado de sinal.
Quando seu feed de notícias financeiras está poluído de manchetes vazias, enquetes irrelevantes e artigos que nem carregam, acontecem duas coisas:
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Você perde tempo. Tempo que poderia estar lendo um 10-K, analisando um balanço, ou simplesmente vivendo sua vida.
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Você cria uma falsa sensação de estar informado. Que é infinitamente pior do que admitir que não sabe de nada. O investidor que acha que está informado porque leu 30 manchetes por dia é mais perigoso para o próprio patrimônio do que aquele que admite ignorância e compra um ETF.
Benjamin Graham já dizia que o mercado no curto prazo é uma máquina de votação, mas no longo prazo é uma balança. O problema é que hoje as "votações" são influenciadas por um tsunami de conteúdo vazio que não pesa nada na balança.
O filtro que ninguém te ensina
Sabe qual é a habilidade financeira mais valiosa de 2025? Não é saber ler um gráfico de candlestick. Não é entender DeFi. Não é achar a próxima Nvidia antes de todo mundo.
É saber o que ignorar.
Warren Buffett mora em Omaha, Nebraska, longe de Wall Street, de propósito. Lê relatórios anuais, não feeds de notícias. O cara mais rico do mercado de ações se protege ativamente do ruído que você consome de graça e com gosto.
Charlie Munger, que descanse em paz, dizia: "Eu nunca tive uma boa ideia assistindo CNBC."
E você aí, perdendo 15 segundos clicando numa matéria fantasma sobre MacBook na seção de economia.
A provocação final
Então fica a pergunta — e essa é de verdade, não é retórica barata:
Quanto do que você consumiu hoje como "informação financeira" era de fato informação? E quanto era só ruído embalado numa manchete bonita?
Se a resposta te incomoda, bom. Deveria incomodar. Porque enquanto você rola o feed, alguém com skin in the game de verdade está lendo o que importa, filtrando o lixo e tomando decisões com base em substância.
O mercado não premia quem consome mais conteúdo. Premia quem consome o conteúdo certo.
Ou, como diria o Coringa: "Se você é bom em alguma coisa, nunca faça de graça." E o Google News te entrega de graça exatamente o que vale — nada.