Tem uma cena clássica em Matrix onde o Morpheus pergunta pro Neo: "Você quer a pílula azul ou a vermelha?" O mercado olhou pros resultados da Salesforce na quarta-feira à noite, viu números acima do esperado, e escolheu a pílula do pânico mesmo assim.
Queda de 4,5% no after-hours. Ação batendo nos $183, quase na mínima de 52 semanas.
Porra, o que mais essa empresa precisa fazer?
Os números que deveriam ter sido suficientes
Vamos ao que interessa. Receita de US$ 11,2 bilhões no quarto trimestre fiscal de 2026 — crescimento de 12% ano contra ano, acima do consenso de US$ 11,18 bi. Lucro por ação ajustado de US$ 3,81, 77 centavos acima do que a rua esperava. No comparativo anual, o EPS ajustado cresceu 37%.
O Agentforce, a plataforma de IA que é a grande aposta do Marc Benioff pro futuro, já fechou mais de 29 mil negócios desde o lançamento e virou um negócio de US$ 800 milhões em receita recorrente anual. Amazon, Ford, AT&T, Moderna, GM e Pfizer estão na lista de clientes. CEOs da SharkNinja e da Wyndham Hotels subiram na call de resultados pra dizer que o negócio funciona de verdade — reduzindo custos de mão de obra e gerando milhões em receita incremental.
Não é papo de vendedor. São clientes reais falando com dinheiro real.
E mesmo assim, o mercado disse: "Não me importo."
A verruga que ninguém consegue ignorar
Aqui mora o diabo nos detalhes, e é onde o investidor de verdade precisa prestar atenção em vez de só ler a manchete.
O cRPO — a receita contratada esperada para os próximos 12 meses — cresceu 13% em moeda constante. Bonito, né? Só que 4 pontos percentuais desse crescimento vieram da aquisição da Informatica, fechada recentemente. Organicamente? Crescimento de 9%. Dígito único.
E o mercado queria dígito duplo.
Essa é a narrativa que está corroendo a Salesforce por dentro: a tese de que a IA generativa vai devorar o software empresarial tradicional — e que a empresa não consegue crescer o Agentforce e o negócio legado ao mesmo tempo. O 9% orgânico não matou essa tese. Alimentou ela.
Pra piorar, as margens GAAP — aquelas que seguem os princípios contábeis de verdade, sem maquiagem — comprimiram ano contra ano e ficaram abaixo das estimativas. As margens não-GAAP vieram bonitas, claro. Mas como diria o Taleb, quando todo mundo está usando não-GAAP pra esconder as cicatrizes, o investidor esperto olha pro GAAP com lupa.
E o guidance? Receita e margem operacional GAAP para o novo ano fiscal vieram "um pouquinho abaixo." Num ambiente onde a ação já caiu 27% no ano — depois de um 2025 miserável — "um pouquinho abaixo" é o mesmo que jogar gasolina na fogueira.
A cartada do desespero que faz sentido
A Salesforce recomprou US$ 4 bilhões em ações no trimestre e anunciou um novo programa de recompra de até US$ 50 bilhões. Com um market cap de US$ 180 bilhões, isso equivale a 27% da empresa.
Leia de novo: vinte e sete por cento.
Isso não é sinalização. Isso é a diretoria gritando: "A ação está barata demais, porra!" E a 14,5x o ponto médio de lucro projetado, com crescimento de duplo dígito na receita, é difícil argumentar que estão errados — se você acredita que o negócio não vai ser engolido por agentes de IA mais baratos.
O elefante chamado "IA comendo software"
Esse é o medo existencial. E nenhum trimestre isolado vai resolver.
O mercado precisa de prova — trimestre após trimestre — de que o Agentforce não é só um remendo cosmético, mas sim a evolução real do modelo de negócios. Que a Salesforce consegue ser a plataforma que entrega a disrupção em vez de ser vítima dela.
Por enquanto, o que temos é uma empresa que bate estimativas de receita e lucro, tem clientes de peso validando o produto, está recomprando ações como se o mundo fosse acabar amanhã — e mesmo assim não consegue convencer o mercado.
Às vezes o Sr. Mercado é racional. Às vezes é um paranoico que viu Exterminador do Futuro vezes demais.
A pergunta que vale US$ 180 bilhões: você vai comprar o medo ou vai esperar o medo te provar certo?