Tem uma cena clássica no Batman: O Cavaleiro das Trevas em que o Coringa entra numa sala cheia de gângsteres e diz: "Por que tão sério?"

É mais ou menos a sensação que eu tenho toda vez que um político sobe num palanque — ou num Congresso Nacional, ou num State of the Union americano — e anuncia que vai resolver a aposentadoria do trabalhador.

Trump fez exatamente isso.

No discurso do Estado da União, o ex-presidente e atual presidente dos Estados Unidos jogou para a plateia a ideia de um novo plano de aposentadoria. Detalhes? Poucos. Promessas? Muitas. Aplausos? Garantidos.

E o ciclo recomeça.


O Que Sabemos (Quase Nada, Como Sempre)

O anúncio foi vago o suficiente para todo mundo aplaudir e ninguém entender direito o que vai acontecer. É a receita clássica da política econômica: fala bonito, não compromete, deixa os "especialistas" tentando decifrar nas próximas semanas.

O que vazou até agora sugere algo relacionado a contas de investimento com vantagens fiscais — uma espécie de expansão ou reformulação das já existentes estruturas de 401(k) e IRA, os planos de previdência privada americanos. Nada que o mercado financeiro ainda não tenha visto em alguma forma.

Mas o problema não é o produto. O problema é a narrativa.


Político Prometendo Aposentadoria é Como Corretor Prometendo Retorno

Nassim Taleb tem uma frase que deveria ser tatuada na testa de todo analista e político que fala de dinheiro alheio: "Não tome conselho financeiro de quem não paga o preço pelos próprios erros."

Skin in the game. Risco compartilhado. Quando foi a última vez que um senador americano ficou sem aposentadoria porque o plano que ele votou afundou? Nunca. Porque eles têm planos próprios, blindados, separados do povão.

Trump — como qualquer outro presidente antes dele, de qualquer partido — não vai depender do plano que está anunciando. Ele não vai acordar aos 70 anos preocupado se o mercado caiu 30% e comeu sua reserva. A mulher de cabelo branco que trabalhou 35 anos numa fábrica no Ohio? Essa vai.

Então quando o circo monta a lona e o palhaço chefe fala em "proteger a aposentadoria dos americanos", eu ouço: "Vamos criar mais um produto financeiro com nome bonito que vai beneficiar as gestoras de Wall Street enquanto o trabalhador acha que está fazendo algo inteligente."


O Brasil Não Está Livre Disso Não

Antes que você vire a página achando que isso é problema americano: o Brasil é um laboratório ainda mais caótico dessas experiências.

Nossa reforma da previdência de 2019 foi vendida como a salvação da pátria. A previdência privada virou moda nas plataformas de investimento. PGBL, VGBL, taxa de administração de 2% ao ano, fundo que rende menos que o CDI mas cobra como se fosse o Ray Dalio operando — o circo aqui tem até cheiro de pipoca.

E o trabalhador médio brasileiro ainda não entende a diferença entre rentabilidade bruta e líquida. Ainda cai no conto do gerente do banco que "só quer ajudar".

O problema não é que planos de aposentadoria são ruins. O problema é que eles são vendidos por gente que não tem interesse alinhado com o seu.


O Que Você Deveria Fazer (Enquanto o Circo Continua)

Warren Buffett, que tem mais décadas de skin in the game do que qualquer político tem de mandatos, sempre disse algo simples: entenda o que você está comprando, pague pouco em taxa, e não entre em pânico quando o mercado cair.

Parece óbvio. É óbvio. E mesmo assim, milhões de pessoas ignoram isso toda vez que uma novidade aparece com o selo de aprovação presidencial.

Enquanto Trump anuncia seu plano, enquanto os analistas de terno debatem nos painéis da CNN e da Fox, enquanto as gestoras preparam os materiais de venda — você deveria estar fazendo uma coisa muito mais chata e muito mais lucrativa: revisando suas taxas, entendendo onde seu dinheiro está alocado, e parando de terceirizar o seu futuro financeiro para quem não vai sentir nada se der errado.

Porque no final do dia, o plano de aposentadoria mais seguro do mundo ainda é esse: você entender o que está fazendo com o seu próprio dinheiro.

O resto é discurso de State of the Union.


Você já sabe onde está cada real da sua aposentadoria — ou está torcendo para que alguém de terno cuide disso por você?