Sabe aquela frase do filme O Poderoso Chefão? "Deixe seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda."

Pois é. As ações de dividendos — aquelas que a turma do growth chama de "coisa de velho" — estavam sendo tratadas como inimigas do portfólio moderno. Agora, silenciosamente, estão se aproximando perigosamente das queridinha de tecnologia numa métrica que importa de verdade: crescimento de lucros.

E isso muda o jogo inteiro.

Os números que ninguém quer te contar

Vamos ao concreto, sem floreio de assessoria de imprensa.

No primeiro trimestre de 2025, o S&P 500 Dividend Aristocrats Index — que reúne empresas que aumentam dividendos há pelo menos 25 anos consecutivos — teve crescimento de lucros negativo de 5,5%. Estava feio. O povo olhava e falava: "Tá vendo? Dividendo é coisa de museu."

Enquanto isso, o Nasdaq 100 ostentava crescimento de lucros acima de 35% no segundo tri de 2025. A diferença era obscena.

Agora pula pro quarto trimestre do ano passado: os Dividend Aristocrats aceleraram para +9% de crescimento de lucros. E o Nasdaq 100? Despencou de 35% para menos de 15%.

Leu direito? A diferença que era um abismo virou uma fresta. E pode inverter em breve.

O que está acontecendo por baixo do capô

Simeon Hyman, estrategista global da ProShares, disse no podcast ETF Edge da CNBC esta semana algo que merece ser repetido:

"Não é só o preço das ações virando, são os fundamentos virando."

E ele tem razão. Empresas de setores como financeiro, saúde, industriais e energia — onde você encontra os maiores pagadores de dividendos — estão com margens operacionais melhores, balanços mais saudáveis e gerando mais caixa. Chevron, ExxonMobil, Target... gente que produz coisa real, que cobra dinheiro real, que paga dividendo real.

Enquanto isso, do outro lado do ringue, as big techs estão torrando fortunas bíblicas em data centers de inteligência artificial. Capex nas alturas, fluxo de caixa pressionado, balanços que estão engordando de dívida. E as expectativas? Continuam estratosféricas depois de anos de alta. Qualquer tropeço e o mercado cobra o preço — como já vimos acontecer com várias delas nos últimos meses.

Todd Rosenbluth, chefe de pesquisa da VettaFi, bateu na mesma tecla: os setores de dividendos estão experimentando cada vez mais crescimento. Não é história de yield estático. É crescimento real de lucro combinado com distribuição crescente de dividendos.

O elefante na sala: guerra e petróleo acima de US$ 100

Esse movimento de rotação começou antes do segundo conflito militar no Oriente Médio em menos de um ano. Mas a guerra entre EUA e Irã, com petróleo persistentemente acima de US$ 100 e o fantasma do fechamento do Estreito de Ormuz, jogou gasolina (sem trocadilho) nessa tese.

Num cenário de inflação pressionada, cadeias de suprimento estranguladas e economia global desacelerando, onde você quer estar? Na empresa que queima caixa apostando em IA generativa ou na que paga dividendos crescentes há um quarto de século, tem balanço limpo e negocia a múltiplos razoáveis?

Porra, essa é fácil.

Skin in the game vs. narrativa vazia

Taleb já ensinou: desconfie de quem fala bonito mas não tem pele no jogo. A turma que grita "all in em tech" geralmente é a mesma que vende curso e não mostra extrato.

Empresas que pagam dividendos crescentes há 25 anos têm a skin in the game mais brutal que existe — elas literalmente tiram dinheiro do caixa e colocam no bolso do acionista, trimestre após trimestre. Se a gestão for ruim, o dividendo some. Simples assim. É o teste definitivo de disciplina de capital.

O ETF ProShares S&P 500 Dividend Aristocrats (NOBL) é um dos veículos para surfar essa tese. Mas o ponto maior não é um ticker específico — é a mudança estrutural que está acontecendo debaixo do nariz de quem só olha pra Nasdaq.

A pergunta que fica

Se o gap de crescimento de lucros entre dividendos e tech já fechou quase completamente — e a tendência é de inversão — por que raios o consenso do mercado ainda trata ações de dividendos como segunda classe?

Será que o mercado está preso na Matrix, repetindo a narrativa de 2023 enquanto o mundo de 2026 já é outro filme?

Pense nisso antes de colocar mais um real em empresa que promete mudar o mundo mas não consegue nem pagar um dividendo.