Deixa eu te contar uma história.

Logan Paul — sim, o mesmo youtuber que já causou escândalo em meio mundo — vendeu um cartão de Pokémon por US$ 16,5 milhões. Recorde mundial. O comprador foi AJ Scaramucci, filho do famoso Anthony Scaramucci, aquele que durou onze dias como diretor de comunicações da Casa Branca antes de ser chutado porta afora.

Parece piada. Não é.

O cartão é o "Pikachu Illustrator", fabricado em 1998, com apenas algumas dezenas de exemplares no mundo inteiro. Logan Paul tinha comprado o mesmo cartão em 2021 por US$ 5,3 milhões. Vendeu agora com mais de 200% de retorno.

Enquanto você estava discutindo se Vale3 tava cara ou barata, um Pikachu entregou 200% em quatro anos.


O Circo Tem Razão Dessa Vez?

Meu primeiro instinto foi o de sempre: mais uma bolha, mais um circo, mais um ativo de rico entediado procurando onde guardar dinheiro impresso pelo Fed.

Mas aí os dados chegam e complicam a narrativa fácil.

Segundo a Card Ladder, firma de análise do mercado de cards, o volume mensal de negociações secundárias quase dobrou nos últimos dois anos. O índice Pokémon deles subiu 145% no último ano. O S&P 500? 15,2%. A Alphabet — queridinha das Big Techs — subiu 73% no mesmo período.

Você leu certo. Uma coleção de cartinhas com monstrinhos japoneses bateu a Alphabet no ano.

O CEO da eBay, Jamie Iannone, confirmou na teleconferência de resultados que colecionáveis — especialmente cards — foram o maior motor de crescimento da empresa no quarto trimestre. A eBay é dona do Goldin Auctions, que conduziu o leilão do Pikachu dos US$ 16 milhões.

Isso não é mais nicho de saudosista de infância. Isso é mercado.


Scaramucci e o "Debasement Trade"

AJ Scaramucci — fundador da Solari Capital e comprador do cartão mais caro da história — não está fazendo isso por nostalgia. Ele está fazendo isso como tese de investimento.

A tese dele é o que o mercado chama de debasement trade: quando governos imprimem dinheiro e destroem o poder de compra das moedas, o capital migra para ativos escassos, tangíveis, que nenhuma impressora do banco central consegue replicar.

Ouro. Bitcoin. Arte. Imóvel raro. E agora: Pikachu de 1998.

"A taxa de crescimento anual composto desses cards está fora de controle", disse Scaramucci. "E eles devem ser tratados como investimentos porque é exatamente isso que eles são. É óbvio."

Taleb adoraria esse raciocínio. Ativo escasso, não correlacionado com bolsa, com valor determinado por escassez real — não por projeção de fluxo de caixa de analista que nunca arriscou um centavo próprio na vida.


Mas Calma, Aqui Mora o Diabo

Paul Karger, da TwinFocus, wealth advisory pra gente com muito mais dinheiro do que você e eu, tem um conselho mais sóbrio: "Pense nisso como paixão primeiro, investimento depois."

E ele tem razão na parte que dói.

Colecionáveis têm problemas sérios que nenhum influencer vai te contar:

Primeiro: liquidez zero. Você não vende um Pikachu Illustrator na sexta às 14h porque precisa cobrir uma margem. Você espera o leilão certo, o comprador certo, a lua certa.

Segundo: o preço é o que alguém está disposto a pagar. Não tem balanço. Não tem lucro por ação. O valor é 100% narrativa e demanda. Se a narrativa morre, o ativo derrete.

Terceiro — e aqui a faca realmente corta: nos EUA, ganhos de capital em colecionáveis são tributados em 28%. No Brasil, a situação é igualmente ingrata dependendo de como você estrutura a operação.

Então antes de largar a sua carteira de FIIs por uma pasta de cards lacrados, respira.


Então o Que Fazer com Essa Informação?

Aqui está o que eu acho, sem papas na língua:

Colecionáveis podem ser um complemento legítimo de portfólio para quem já tem a base construída — renda fixa, ações, proteção de capital. Para esses, faz sentido alocar uma fatia pequena em ativos alternativos não correlacionados.

Mas se você ainda está tentando pagar a reserva de emergência, o Pikachu pode esperar.

O problema real não é o card de US$ 16 milhões. O problema é o cara sem estrutura financeira nenhuma que vai gastar R$ 3.000 em cards lacrados assistindo a um vídeo no YouTube achando que vai ficar rico.

Esse é o circo de sempre. Embalagem nova, mesmo espetáculo.

A diferença entre o Scaramucci e esse cara? Skin in the game de verdade — e um colchão de capital que permite errar sem quebrar.

Você tem esse colchão?