Tem uma cena no Coringa em que o Arthur Fleck dança naquela escadaria, achando que finalmente chegou ao topo. O mundo todo aplaude. E aí, dois minutos depois, a realidade desaba em cima dele.

A CoreWeave tá vivendo esse momento agora.

Os números que deveriam ser uma festa

A empresa soltou o balanço do quarto trimestre de 2025 e, olha só: receita de US$ 1,57 bilhão, contra US$ 1,55 bilhão esperado pelo consenso. Crescimento de 110% ano contra ano. O CEO Mike Intrator, com aquele ar de quem acabou de dar uma volta olímpica, escreveu no blog da empresa que a CoreWeave se tornou "a plataforma de nuvem mais rápida da história a superar US$ 5 bilhões em receita anual."

Beleza, Mike. Parabéns. Nota dez.

Mas o mercado? O mercado mandou as ações caírem 8% no after-hours.

Porra, por quê?

O diabo mora nos detalhes — como sempre

Primeiro: o prejuízo por ação foi de 89 centavos. Não é pouco. Estamos falando de uma empresa que abriu capital em março de 2025 e já acumula US$ 21,37 bilhões em dívida. Leu direito? Vinte e um bilhões. Com "b" de "buraco no bolso."

Segundo: o EBITDA ajustado de US$ 898 milhões veio abaixo do consenso de US$ 929 milhões. Parece fichinha, mas quando você opera com margens apertadas e uma montanha de dívida, cada centavo conta.

Terceiro: o capex de 2026 foi de US$ 10,31 bilhões, abaixo dos US$ 12,90 bilhões que o mercado esperava. Isso pode parecer bom ("olha, gastaram menos!"), mas pra uma empresa de infraestrutura que precisa escalar brutalmente, gastar menos pode significar crescer menos. E aí o bicho pega.

O backlog monstruoso — e o que ele realmente significa

Agora, o número que faz o coração de qualquer analista bater mais forte: o backlog de receita saltou para US$ 66,8 bilhões, contra US$ 55,6 bilhões no terceiro trimestre.

Sessenta e sete bilhões em contratos futuros.

Isso é uma fila enorme de clientes querendo GPU na veia — gente como Google e OpenAI, que são basicamente os Tony Starks da inteligência artificial. A CoreWeave também fechou um acordo com a Poolside, lançou um serviço de object storage e aumentou sua linha de crédito de US$ 1,5 bilhão para US$ 2,5 bilhão.

Capacidade ativa de energia? 850 megawatts, acima dos 827 MW esperados. Capacidade contratada? 3,1 gigawatts. Isso é muita energia. Muita máquina rodando. Muito dinheiro queimando.

E é exatamente aí que mora o paradoxo.

A maldição do "crescer a qualquer custo"

Sabe o que me lembra a CoreWeave? A fase de expansão do Walter White em Breaking Bad. O cara tinha o melhor produto do mercado, demanda infinita, mas a operação ficou tão grande e tão endividada que qualquer tropeço virava uma crise existencial.

A CoreWeave é isso. Ela é, sem dúvida, uma das empresas mais bem posicionadas no boom da IA. Enquanto o ETF de software caiu quase 22% em 2026, a ação da CoreWeave subiu 36% até o fechamento de quinta. Mas sustentar esse ritmo com US$ 21 bilhões em dívida é como correr uma maratona carregando um piano nas costas.

E o timing é ingrato. A Anthropic soltou uns anúncios recentes que fizeram investidores de software venderem tudo que tinham pela frente. O sentimento do setor tá nervoso. Ninguém quer ser o último a sair da festa se a música parar.

O que realmente importa aqui

A CoreWeave não é uma fraude. Não é um meme. É uma empresa real, com contratos reais, com clientes que são os maiores nomes do planeta em IA. Mas o mercado tá dizendo algo que o Mike Intrator talvez não queira ouvir: crescer 110% ao ano não basta se você não mostrar um caminho claro pro lucro.

Nassim Taleb diria que a fragilidade da CoreWeave está no tamanho da alavancagem. Se a demanda por IA tropeçar — e ninguém sabe quando, mas pode tropeçar — aqueles US$ 21 bilhões em dívida viram uma âncora no pescoço.

A pergunta que fica: você tá confortável apostando numa empresa que dobra de receita todo ano, mas que precisa de cada centavo de um backlog de US$ 67 bilhões se materializar pra não implodir?

Porque o mercado, hoje à noite, respondeu que não tá tão confortável assim.

E o mercado, quando fica desconfortável, não manda carta avisando. Manda porrada.