Você abre o app da companhia aérea pra dar aquela olhada inocente num voo pro feriado e — porra — quase derrama o café no teclado.

O preço dobrou.

Não é exagero retórico. Não é manchete clickbait. O Wall Street Journal soltou uma matéria dizendo que passagens aéreas nos Estados Unidos dobraram em algumas rotas para a temporada de viagens de primavera. O tal "sticker shock" — aquele susto ao ver o preço na etiqueta — bateu na porta dos americanos com a sutileza de um Mike Tyson nos anos 90.

O circo aéreo americano

Vamos ao que interessa.

As companhias aéreas dos EUA estão cobrando os olhos da cara por rotas que, há um ano, custavam metade do preço. Destinos populares de primavera — Flórida, Caribe, Costa Oeste — viraram artigos de luxo de uma hora pra outra.

E por que isso acontece? A resposta curta: oferta apertada, demanda explodindo e combustível caro.

A resposta longa envolve anos de má gestão da capacidade, consolidação do setor (cada vez menos companhias competindo), e aquela velha dinâmica de pricing power que surge quando o consumidor não tem alternativa. É o que acontece quando oligopólios percebem que podem espremer mais. E espremem.

Lembra daquela cena do Coringa em que ele queima a montanha de dinheiro? As companhias aéreas fazem o inverso — elas constroem a montanha, tirando dinheiro do seu bolso com uma eficiência invejável.

"Ah, mas isso é nos EUA"

Pausa.

Se você acha que esse problema é exclusivamente gringo, deixa eu te lembrar que o brasileiro já vive esse inferno faz anos. O preço médio das passagens domésticas no Brasil subiu de forma brutal desde 2020. Quem voava de São Paulo pra Salvador por R$ 400 ida e volta hoje paga R$ 1.200 se tiver sorte. E se for em cima da hora? Meu amigo, é mais barato alugar um carro e dirigir.

A Gol e a Azul jogam o mesmo jogo das americanas: yield management turbinado por algoritmos que sabem exatamente o quanto você está disposto a pagar. E quando uma companhia sai do mercado — como a Avianca saiu há uns anos — as que ficam comemoram em silêncio, porque menos concorrência significa mais poder de precificação.

É o capitalismo funcionando. Sem vilão, sem conspiração. Apenas oferta e demanda numa estrutura oligopolista. Adam Smith não ficaria surpreso.

O que o investidor deveria enxergar aqui

Passagens mais caras significam margens maiores para as companhias aéreas — pelo menos no curto prazo. Quem está posicionado em papéis do setor aéreo americano (Delta, United, Southwest) pode estar sorrindo. As ações dessas empresas tiveram desempenho razoável nos últimos meses exatamente porque o mercado antecipou esse poder de preço.

Mas aqui mora o perigo que o Warren Buffett conhece bem. O Oráculo de Omaha tem uma relação de amor e ódio com companhias aéreas — ele investiu pesado nelas antes da pandemia e vendeu tudo no pânico de 2020. Buffett sempre disse que o setor aéreo é um destruidor de capital no longo prazo. As margens vêm e vão. O combustível sobe. Os sindicatos pressionam. O governo regula. E o ciclo se repete.

Se o consumidor americano — que já está com o cartão de crédito sangrando — decidir que não vai mais pagar US$ 800 numa rota que custava US$ 350, a demanda cai. E quando a demanda cai, as companhias entram em guerra de preços. E quando entram em guerra de preços, as margens viram pó.

Nassim Taleb chamaria isso de fragilidade disfarçada de força. A margem gorda de hoje é o convite pro tombo de amanhã.

E o brasileiro nisso?

Fica esperto. Se as passagens lá fora estão nesse nível, o turismo internacional do brasileiro de classe média — que já era caro — fica ainda mais proibitivo. Dólar alto + passagem cara = férias no litoral de São Paulo.

Não tem mágica. Não tem hack financeiro. Não tem guru do Instagram que vai resolver isso com "milhas grátis".

A pergunta que fica é simples e desconfortável: se até o americano está tomando susto com o preço de voar, quanto tempo até as companhias aéreas brasileiras perceberem que espremeram o limão até não sobrar mais suco?

Ou será que o limão ainda aguenta?