Existe uma cena clĂĄssica no filme Casino em que o personagem do De Niro olha pro cara apostando tudo numa Ășnica mĂŁo de blackjack e diz algo do tipo: "Ele ou Ă© um gĂȘnio ou Ă© um idiota. Vamos descobrir em trinta segundos."
Pois bem. Masayoshi Son, o eterno apostador de Silicon Valley, estĂĄ fazendo exatamente isso â sĂł que com quarenta bilhĂ”es de dĂłlares emprestados.
O Fato Nu e Cru
Segundo a Bloomberg, o SoftBank estĂĄ negociando um emprĂ©stimo que pode chegar a US$ 40 bilhĂ”es com bancos como JPMorgan, Goldman Sachs e outros peso-pesados de Wall Street. O objetivo? Financiar seu investimento na OpenAI, a dona do ChatGPT, aquela mesma empresa que vocĂȘ usa pra perguntar receita de bolo e escrever e-mail pro chefe.
O deal faz parte de uma rodada monstruosa que avaliaria a OpenAI em algo na casa dos US$ 300 bilhÔes. Sim, trezentos bilhÔes. Pra uma empresa que ainda estå tentando descobrir como lucrar de forma sustentåvel.
Leia de novo: emprĂ©stimo. NĂŁo Ă© dinheiro que o Son tem no colchĂŁo. Ă alavancagem. Ă dĂvida. Ă colocar o futuro como garantia de uma aposta no presente.
O PadrĂŁo Masa
Se vocĂȘ acompanha o mercado hĂĄ mais de cinco minutos, sabe que essa histĂłria tem cheiro de dĂ©jĂ vu.
Masayoshi Son Ă© o cara que:
- Despejou US$ 100 bilhÔes no Vision Fund original, a maior parte vinda da Aråbia Saudita
- Apostou pesado no WeWork â aquele coworking glorificado que quase virou a maior falĂȘncia da dĂ©cada
- Perdeu US$ 17 bilhÔes pessoais no estouro da bolha dotcom
- E mesmo assim, é o mesmo cara que investiu US$ 20 milhÔes no Alibaba lå em 2000, que viraram US$ 60 bilhÔes
Ou seja: Masa Son Ă© o tipo de jogador que perde nove vezes e ganha uma â mas quando ganha, ganha tĂŁo absurdamente grande que apaga todas as perdas anteriores. Ă a mentalidade Taleb do barbell strategy levada ao extremo psicĂłtico.
O problema? Dessa vez ele estĂĄ fazendo isso com dinheiro dos outros. De novo.
Por Que Isso Importa Pra VocĂȘ
"Ah, mas eu nĂŁo tenho nada a ver com o SoftBank."
Tem sim. E eu explico.
Quando uma Ășnica empresa levanta US$ 40 bilhĂ”es em dĂvida pra apostar numa startup de IA, isso faz trĂȘs coisas no mercado:
Primeiro, infla a bolha de valuation de IA. Se a OpenAI vale US$ 300 bilhĂ”es, entĂŁo toda empresa que coloca "IA" no pitch deck acha que vale dez vezes mais do que realmente vale. Isso respinga nos seus investimentos, nos fundos que vocĂȘ compra, nos ETFs que vocĂȘ segura.
Segundo, concentra risco sistĂȘmico. Bancos como JPMorgan e Goldman estĂŁo expostos a esse emprĂ©stimo. Se a aposta der errado, adivinha quem sente o tremor? O sistema financeiro como um todo.
Terceiro, cria uma narrativa de "dinheiro infinito" que distorce a realidade. Todo mundo começa a agir como se capital fosse ilimitado e como se IA fosse a resposta pra tudo. Até que não é.
O Elefante na Sala
Ninguém fala sobre o óbvio: a OpenAI queima dinheiro como churrasqueira em domingo de jogo do Brasil.
A empresa gasta bilhĂ”es em computação, em salĂĄrios de PhDs que ganham mais do que jogador de futebol, e o modelo de negĂłcio â a assinatura do ChatGPT e licenciamento de API â ainda nĂŁo provou que escala o suficiente pra justificar um valuation de US$ 300 bilhĂ”es.
Estamos falando de uma empresa que, atĂ© pouco tempo atrĂĄs, era sem fins lucrativos. Que tem o Sam Altman navegando uma transição corporativa cheia de drama e processo judicial. Que depende fundamentalmente da Microsoft e agora precisa se equilibrar entre mĂșltiplos investidores bilionĂĄrios com egos do tamanho de galĂĄxias.
E o Masa Son olha pra tudo isso e fala: "Bota quarenta bi aĂ, emprestado."
Porra.
O Que Taleb Diria
Nassim Taleb tem uma regra simples: nunca confie na anĂĄlise de quem nĂŁo tem skin in the game com o prĂłprio dinheiro.
Masa Son tem skin in the game? Em parte, sim â o SoftBank Ă© basicamente uma extensĂŁo dele. Mas os US$ 40 bilhĂ”es sĂŁo emprĂ©stimo bancĂĄrio. Se der merda, ele reestrutura a dĂvida, os bancos absorvem, e a vida dele continua num iate diferente.
Quem realmente paga a conta sĂŁo os acionistas do SoftBank e, indiretamente, o sistema financeiro que sustenta essa alavancagem.
EntĂŁo fica a pergunta: vocĂȘ acha que estamos diante do prĂłximo Alibaba â ou do prĂłximo WeWork?
Porque entre a genialidade e a insanidade, a distùncia é de exatamente US$ 40 bilhÔes.