Tem uma cena em Parasita, do Bong Joon-ho, que nunca me saiu da cabeça: a família rica e a família pobre vivem na mesma cidade, respiram o mesmo ar, mas habitam planetas diferentes. A chuva que é inconveniente pra uma é enchente existencial pra outra.
Pois bem. Os resultados trimestrais de duas gigantes das academias americanas — Life Time (LTH) e Planet Fitness (PLNT) — acabam de entregar a versão fitness dessa metáfora. E é brutal.
O mesmo título, dois filmes completamente diferentes
Na manchete, as duas reportaram crescimento de dois dígitos em receita, aumento de membros e expansão de unidades em 2025. Lindo. Champanhe pra todo mundo, certo?
Errado, porra.
Debaixo do capô, a história se bifurca como aquele meme do "expectativa vs. realidade". E o nome técnico dessa bifurcação é economia em forma de K — onde o braço de cima (os mais ricos) continua subindo alegremente, enquanto o braço de baixo (classe média e baixa) começa a tremer.
Life Time: onde o dinheiro grosso sua em paz
A Life Time opera aqueles clubs gigantes, com piscina, spa, café gourmet e personal trainer que cobra mais por hora do que muito brasileiro ganha por dia. É o playground dos afluentes. E os afluentes, meu amigo, estão gastando como se não houvesse amanhã.
No quarto trimestre, a receita subiu 12,3% ano contra ano, batendo US$ 745 milhões. A receita média por membro chegou a US$ 882 — alta de quase 11%. A empresa aumentou as mensalidades entre US$ 10 e US$ 30 por cabeça, e sabe o que aconteceu?
Nada. Ninguém cancelou. Ninguém reclamou. A demanda continuou subindo.
O CEO Bahram Akradi descreveu o modelo como "membership super engajada, não um modelo de não-uso". Traduzindo do economês: as pessoas não pagam pra não ir. Elas pagam e vão — e ainda torrram mais grana com treino particular, tratamento de spa e açaí artesanal de US$ 18 a tigela.
O analista da Mizuho, John Baumgartner, cravou: os riscos de queda são limitados porque a base de clientes é de alta renda. A recessão que os jornais vendem todo dia? Pra esse público, é notícia que se lê no iPad enquanto espera a massagem.
Planet Fitness: cresceu, mas o guidance gelou a espinha
Do outro lado do K, a Planet Fitness — a academia de US$ 10 por mês, o templo da democratização do fitness — também cresceu. Adicionou 1,1 milhão de novos membros em 2025. Receita de dois dígitos. Bonito no retrovisor.
Mas o mercado não vive de retrovisor. Vive de guidance. E o guidance da Planet Fitness pro fiscal de 2026 veio abaixo do que Wall Street esperava: crescimento de receita de 9% e vendas mesmas lojas de 4% a 5%. Fraco.
O CFO Jay Stasz tentou amenizar: "tempestades em janeiro", "frio em vários mercados", "taxa de cancelamento ligeiramente acima do esperado mas já voltando ao normal". O clássico "foi pontual, não estrutural".
Será?
A Planet Fitness está testando aumentos de preço em alguns mercados, com rollout previsto pro verão de 2026. Também está investindo em novas amenidades. Ou seja: tentando extrair mais receita por membro num público que, por definição, é sensível a preço.
Isso é como pedir pra corda bamba aguentar mais peso. Pode funcionar. Pode estourar.
O que o K nos diz de verdade
Olha, a economia em K não é novidade. Desde a pandemia, quem tem ativos (ações, imóveis, negócios) surfou a onda da liquidez. Quem vive de salário levou porrada da inflação, dos juros e do custo de vida.
A novidade é que até dentro do mesmo setor — academias, algo aparentemente simples — a divergência está estampada nos balanços.
A Life Time cresce porque seu cliente é rico. A Planet Fitness cresce apesar de seu cliente ser apertado. São vetores completamente diferentes, e só um deles é sustentável sob estresse macroeconômico.
Se a economia americana de fato desacelerar em 2026 — e há sinais disso —, a Life Time vai funcionar como um bunker de luxo. A Planet Fitness vai ser o canário na mina de carvão do consumo popular.
E você, investidor, precisa decidir: está apostando no spa ou na esteira de US$ 10?
Porque no formato K, não existe meio-termo. Só tem pra cima ou pra baixo. E o elevador já saiu.