Sabe aquela cena do Coringa onde ele diz "ninguém entra em pânico quando as coisas acontecem de acordo com o plano"? Pois é. O plano da Adidas era reconquistar a confiança do mercado depois do desastre Yeezy. A realidade? Menos 8% num único pregão, mínima de 52 semanas, e investidores correndo pra saída como se o prédio estivesse pegando fogo.

Vamos ao que interessa.

O que aconteceu

Na quarta-feira, a gigante alemã de sportswear soltou seus números de 2025 e, mais importante, o guidance para 2026. Receita de 2025 fechou em 24,8 bilhões de euros. Crescimento do quarto trimestre foi de dois dígitos. Lucro operacional mais que dobrou no trimestre. Até aqui, parece bonito.

Mas o mercado não vive de retrovisor.

O guidance de lucro operacional para 2026 ficou em 2,3 bilhões de euros — cerca de 15% abaixo do que o consenso esperava. Uma margem operacional implícita de aproximadamente 9%, que fez o pessoal da Jefferies e da RBC engolir seco.

A Adidas culpou dois vilões: tarifas americanas (impacto negativo de 400 milhões de euros) e câmbio desfavorável. Traduzindo do economês: o dólar forte come a margem de quem vende em euro, e as tarifas do Tio Sam encarecem o produto no maior mercado consumidor do mundo.

O contexto que ninguém quer ouvir

Vamos ser honestos aqui. A ação da Adidas já vinha apanhando feio — queda de 43% nos últimos 12 meses. Isso não é "correção saudável". Isso é o mercado dizendo, com todas as letras: "Não estamos comprando essa história."

E a história tem motivos pra gerar desconfiança.

Lembra do Kanye West — agora "Ye" — e a linha Yeezy? Aquele era o motor de crescimento da Adidas. Quando o rapper resolveu soltar comentários antissemitas e a empresa teve que cortar relações em 2022, ficou um buraco no faturamento do tamanho de um cratera. Bjørn Gulden assumiu como CEO em 2023 justamente pra tapar esse rombo.

E ele tem feito um trabalho decente. Não espetacular, mas decente.

O problema é que "decente" não basta quando o mercado precificou turnaround acelerado. Quando você promete a Matrix e entrega um episódio de novela das seis, o mercado te pune sem dó.

O setor inteiro tá na merda

Não é só a Adidas. A Puma, compatriota alemã, passa pelos mesmos perrengues. A Nike, a gigante americana que todo mundo achava imbatível, está no meio do seu próprio turnaround — o CEO disse à CNBC em outubro que "vai demorar" pra empresa voltar ao crescimento lucrativo.

O problema é estrutural: excesso de oferta global, mudança no gosto do consumidor chinês (que era a galinha dos ovos de ouro de todo mundo), e margens sendo corroídas por custos geopolíticos que nenhum CFO do planeta controla.

É aquele cenário que o Taleb descreveria como "fragilidade sistêmica" — todo mundo construiu modelos de crescimento baseados em condições que não existem mais.

O voto de confiança (ou desespero?)

Em meio a tudo isso, a Adidas renovou o contrato do CEO Gulden até 2030. A empresa chamou de "voto de confiança na estratégia". Eu chamo de "não temos alternativa melhor agora, então vamos dobrar a aposta".

As metas de médio prazo apresentadas — crescimento de receita na casa dos altos dígitos únicos e expansão de lucro operacional de "mid-teens" ao ano entre 2026-2028 — são ambiciosas. Bonitas no PowerPoint. Mas o mercado quer ver execução, não slide deck.

O que isso significa pra você

Se você tem Adidas na carteira ou estava pensando em comprar na baixa, cuidado com a armadilha do "tá barato". Uma ação que caiu 43% em doze meses pode cair mais outros 20% antes de qualquer recuperação. Barato e bom valor são coisas completamente diferentes.

O guidance conservador pode ser — como a própria RBC sugeriu — a Adidas sendo prudente no começo do ano pra surpreender positivamente depois. É o velho truque de abaixar a barra pra depois pular por cima dela. Gulden já fez isso antes.

Mas e se não for conservadorismo? E se for realismo?

Porra, às vezes a resposta mais simples é a correta: a empresa está navegando águas turbulentas, o vento tá contra, e quem esperava céu azul levou uma tempestade na cara.

A pergunta que você deveria estar se fazendo não é "a Adidas vai se recuperar?", mas sim: você tem estômago pra aguentar o trajeto até lá — sem saber se o destino sequer existe?

Porque no mercado, como na vida, quem não tem skin in the game opina fácil. Quem tem dinheiro na mesa sente cada ponto percentual na carne.