Sabe aquela cena do Coringa em que ele queima a montanha de dinheiro e diz que "não é sobre o dinheiro, é sobre mandar uma mensagem"?

Pois é. Os baristas da Starbucks acabam de mandar a mensagem deles. E a montanha de dinheiro continua pegando fogo.

O que rolou

O sindicato Starbucks Workers United apresentou à empresa no mês passado uma proposta completa de contrato trabalhista — a primeira tentativa séria de fechar um acordo coletivo com a gigante do café. A notícia veio à tona numa call com investidores na sexta-feira, e o conteúdo é mais picante que um espresso triplo sem açúcar.

Eis o que os baristas estão pedindo:

  • Piso salarial de US$ 17 por hora. Detalhe: eles já pediram US$ 20 antes e recuaram. O piso atual da Starbucks é de míseros US$ 15,25 a US$ 16 por hora em 43 estados. Ou seja, o sindicato já veio no modo "vamos ser razoáveis" e ainda assim é provável que a empresa vá chorar.
  • Reajuste anual de 4%. Num país onde a inflação comeu o poder de compra de todo mundo nos últimos anos, pedir 4% ao ano não é luxo — é sobrevivência.
  • Proteção contra demissões injustas, discriminação e fechamento de lojas. Traduzindo: "parem de fechar unidades sindicalizadas como retaliação".
  • Mínimo de três funcionários no chão de loja o tempo todo. Quem já entrou numa Starbucks lotada com dois baristas desesperados sabe que isso deveria ser óbvio.
  • Obrigação de oferecer horas extras aos funcionários existentes antes de contratar novos. Básico. Elementar. E mesmo assim precisa estar num contrato.
  • Resolução de centenas de acusações pendentes de práticas trabalhistas abusivas. Centenas. Não são dezenas — são centenas. Deixa isso afundar.

E a resposta da Starbucks ao conteúdo da proposta? Nenhuma. Zero. Nada. Silêncio ensurdecedor.

O que a empresa disse ao CNBC foi que "propôs retomar as negociações presenciais em 30 de março". Ou seja: nem leu direito a proposta, mas já agendou uma reunião pra daqui duas semanas. Clássico jogo corporativo de empurrar com a barriga.

O contexto que ninguém te conta

As negociações entre Starbucks e o sindicato travaram no final de 2024. A última rodada formal foi em dezembro daquele ano. Depois vieram sessões de mediação, e em abril os delegados baristas votaram contra o pacote econômico oferecido pela empresa.

O que veio depois? Uma greve aberta durante a temporada de festas de fim de ano. Baristas em mais de 40 cidades cruzaram os braços por semanas. Dezenas de lojas fecharam temporariamente no período mais lucrativo do ano.

A Starbucks, com aquela cara de paisagem corporativa que a gente já conhece, disse que "não afetou materialmente os negócios". Pode até ser verdade no balanço trimestral. Mas no moral da tropa e na reputação da marca? Aí é outra história.

E por falar em reputação: a assembleia anual de acionistas está marcada para 25 de março. Um grupo de investidores liderado pelo SOC Investment Group já está pedindo que os acionistas votem contra a reeleição de dois diretores — Jørgen Vig Knudstorp e Beth Ford — justamente pela supervisão desastrosa das relações trabalhistas. A Glass Lewis, uma das maiores consultorias de proxy do mundo, recomendou voto contra Ford.

Quando até o pessoal que só liga pra dividendo começa a questionar sua governança trabalhista, o bicho pegou.

O elefante na sala

O sindicato representa apenas 6% das lojas próprias da Starbucks nos EUA. Seis por cento. É quase nada em termos de escala.

Mas aqui vai a verdade que a diretoria da Starbucks não quer encarar: se esses 6% conseguirem um contrato decente, os outros 94% vão querer o mesmo. E aí o custo não é de um contrato — é de uma transformação estrutural.

A Starbucks está tentando um turnaround do seu negócio americano. No último trimestre, o tráfego nas lojas subiu pela primeira vez em dois anos. A empresa precisa desses baristas motivados, sorrindo pro cliente, fazendo aquele latte art bonito no Instagram.

Sabe o que não motiva ninguém? Ganhar US$ 15 por hora, sem estabilidade, sem proteção, e com a sensação de que a empresa prefere fechar sua loja a negociar um contrato justo.

A Starbucks tem US$ 29 bilhões em receita anual. O Howard Schultz construiu um império vendendo a ideia de que baristas são "parceiros". Porra, se são parceiros de verdade, trata como parceiro. Se não são, pelo menos tenha a honestidade de parar com o teatro.

Agora me diz: quanto tempo até a Starbucks perceber que silêncio não é estratégia — é combustível pra próxima greve?