Tem uma cena no filme A Grande Aposta em que Mark Baum olha pro abismo e fala algo do tipo: "Não é que eles não sabiam. É que eles não queriam saber."
Pois bem. Os Estados Unidos sabiam — há décadas — que entregaram de bandeja pra China o controle de mais de 90% do processamento, separação e fabricação de ímãs de terras raras. Aqueles minerais obscuros que fazem seu iPhone vibrar, seu carro elétrico andar e, mais importante, os mísseis guiados do Pentágono funcionarem.
Agora, com a faca no pescoço, resolveram acordar.
A jogada da MP Materials
A MP Materials — dona da única mina de terras raras em escala comercial nos EUA, a Mountain Pass na Califórnia — acaba de anunciar que escolheu Northlake, Texas, pra construir um campus de manufatura de ímãs de terras raras de US$ 1,25 bilhão.
Batizado de "10X" (nome ambicioso, viu), o complexo vai produzir cerca de 7.000 toneladas métricas de ímãs por ano. Some isso às 3.000 toneladas da fábrica que já opera em Fort Worth — inaugurada em 2025 com clientes como General Motors e Apple — e você tem 10.000 toneladas anuais.
Pra dar contexto: as importações americanas de ímãs de terras raras caíram pra míseras 6.000 toneladas em 2025, depois que a China resolveu usar minerais como arma geopolítica, cortando exportações.
Ou seja, no papel, essa fábrica nova resolve o problema de importação direta. No papel.
O Pentágono botou a grana — e a pele no jogo
Aqui é onde a coisa fica interessante de verdade.
O Departamento de Defesa americano — que agora James Litinsky, CEO da MP Materials, chama publicamente de "Departamento de Guerra" (voltaram ao nome original, perceberam?) — não só investiu US$ 400 milhões na empresa em 2025, como garantiu um preço mínimo de US$ 110 por quilo de óxido de neodímio-praseodímio por 10 anos.
E tem mais: toda a produção da 10X está comprometida com o Pentágono pelos próximos 10 anos. Leu direito? TODA.
Clientes comerciais até podem usar o material, mas só com a benção do Departamento de Defesa.
Isso, meus amigos, é o que Nassim Taleb chamaria de skin in the game na veia. O governo americano não tá fazendo discurso bonito em coletiva de imprensa. Tá colocando bilhão na mesa, garantindo preço mínimo e reservando produção. É parceria público-privada com cheiro de mobilização de guerra.
O elefante chinês na sala
O senador Ted Cruz — que convenientemente é do Texas — soltou aquela declaração padrão sobre o Partido Comunista Chinês ser "a ameaça mais aguda à segurança nacional americana". Político sendo político.
Mas a verdade incômoda que ele não disse é a seguinte: mesmo que a MP Materials produza 10.000 toneladas por ano, isso não resolve o problema.
Por quê? Porque quando você soma os ímãs de terras raras que vêm embutidos dentro de carros, celulares, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos importados, a demanda real americana é absurdamente maior do que 6.000 toneladas.
A China não controla só a mina e a fábrica. Controla a cadeia inteira. Do buraco no chão até o produto final na prateleira da Best Buy.
Construir uma fábrica no Texas é um passo. Um passo importante, sem dúvida. Mas chamar isso de "independência" — como Litinsky fez no comunicado — é forçar a barra. É como dizer que você ficou independente do delivery porque aprendeu a fazer arroz.
A produção começa em 2028 — se tudo der certo
A fábrica deve gerar 1.500 empregos diretos e começar a operar em 2028. Dois anos é uma eternidade no cenário geopolítico atual. Muita coisa pode mudar. A China pode apertar mais. Taiwan pode virar zona de conflito. E o preço das terras raras pode ir pra estratosfera.
O mercado reagiu com otimismo, mas eu fico com um pé atrás. A história dos minerais críticos nos EUA é recheada de projetos anunciados com pompa que morreram na burocracia, no custo ou na falta de vontade política quando o ciclo muda.
A diferença dessa vez? O Pentágono tá com a carteira aberta e a China já mostrou que não tem pudor nenhum de usar recursos naturais como munição.
A pergunta que fica: será que US$ 1,25 bilhão é investimento estratégico ou é só o troco de um jogo que exige centenas de bilhões pra vencer?
E você — investe numa empresa que depende de contrato governamental de 10 anos, ou espera pra ver se o resto da cadeia se materializa?
Pense nisso antes de apertar o botão de compra.