Existe uma piada velha no mercado financeiro que nunca envelhece: a empresa bate recorde, supera todas as estimativas, entrega crescimento que qualquer CEO venderia a alma pra ter — e a ação cai.

Parece piada. Não é.

É exatamente o que aconteceu com a Nvidia.

O circo das expectativas

A Nvidia soltou mais uma previsão de vendas otimista. Números que fariam qualquer CFO do planeta chorar de inveja. Receita projetada acima do consenso. Demanda por chips de IA que não dá sinais de desacelerar. O Jensen Huang, de jaqueta de couro e sorriso de quem sabe que está sentado numa mina de ouro, entregou o que prometeu.

E o que Wall Street fez?

Deu de ombros.

A reação dos investidores foi, nas palavras da Bloomberg, "lackluster" — ou, traduzindo pro português da trincheira: morna pra caralho.

Porra, como assim?

Quando o excepcional vira obrigação

Isso aqui é um fenômeno que o Nassim Taleb explicaria em dois minutos: o mercado não precifica o que aconteceu, precifica o que esperava que acontecesse versus o que realmente aconteceu. E quando todo mundo já espera o excepcional, o excepcional vira o mínimo aceitável.

É como aquela cena do Coringa: "Se eu disser que um caminhão de soldados vai explodir, ninguém entra em pânico, porque tudo faz parte do plano."

A Nvidia entregar resultado absurdo já faz parte do plano. O mercado já precificou isso. Os algoritmos já compraram. Os fundos de momentum já surfaram. O que sobra é gente procurando motivo pra realizar lucro.

E esse é o jogo sujo que ninguém te explica no curso de day trade do Instagram.

O que realmente está acontecendo

Vamos ao que interessa, sem enrolação:

1. A Nvidia continua sendo a rainha do baile da IA. Isso não mudou. A demanda por GPUs H100 e agora pela arquitetura Blackwell é real, tangível, e vem de hyperscalers como Microsoft, Google, Amazon e Meta — empresas que estão torrando centenas de bilhões em infraestrutura de IA.

2. O problema não é o fundamento, é o valuation. Quando uma empresa negocia a múltiplos que precificam perfeição absoluta por anos a fio, qualquer sinal de que o crescimento pode — talvez, quem sabe, um dia — desacelerar, já é motivo pra tirar o pé.

3. A rotação setorial é real. Dinheiro grande tem se movido. As mag seven não estão mais andando todas juntas como um bloco soviético. Tem dispersão. E dispersão significa que gente esperta está redistribuindo fichas na mesa.

4. O medo das exportações. As restrições de chips para China continuam sendo uma sombra. A geopolítica é o elefante na sala que todo analista menciona de passagem e ninguém quer enfrentar de verdade.

A lição que vale ouro

Benjamin Graham — o avô de todo investidor que se presta — dizia que no curto prazo o mercado é uma máquina de votação, e no longo prazo é uma máquina de pesagem.

Hoje, a máquina de votação decidiu que a Nvidia entregando resultado espetacular "não é suficiente". Tá bom.

Mas a máquina de pesagem? Essa continua contando os bilhões que entram no caixa da empresa todo trimestre.

O investidor de verdade — aquele que tem skin in the game, que aguenta drawdown sem ligar pro assessor em pânico — sabe que reação de curto prazo a resultado é ruído. Puro, cristalino, ensurdecedor ruído.

A pergunta que importa não é "por que a ação não subiu hoje?" — é: "Daqui a 5 anos, a demanda por computação de IA vai ser maior ou menor do que hoje?"

Se sua resposta é "maior" e o preço faz sentido pra você, então a reação morna de Wall Street é um presente, não um problema.

Se sua resposta é "não sei", tudo bem. Honestidade intelectual é o ativo mais raro do mercado.

Agora, se você entrou na Nvidia porque viu um reel de 30 segundos de um cara de BMW alugado dizendo "compra que vai dobrar"...

Aí o problema não é a Nvidia. É o espelho.