Tem uma cena clássica no Scarface em que Tony Montana olha pro mundo do alto do seu império e diz: "The world is yours." Lindo. Épico. Dez minutos depois, o cara tá morto numa piscina cheia de bala.

David Ellison, CEO da Paramount Skydance, parece estar vivendo o primeiro ato dessa cena.

O Mega-Deal

A Paramount Skydance está prestes a engolir a Warner Bros. Discovery numa transação com valor de empresa de US$ 111 bilhões. Cento e onze bilhões de dólares. Pra você ter uma dimensão, isso é mais que o PIB do Equador. E o sujeito quer usar essa máquina pra cuspir 30 filmes por ano — 15 da Paramount, 15 da Warner Bros.

O negócio ainda precisa de aprovação regulatória nos EUA e na Europa. Ou seja, ainda tem burocrata com caneta na mão podendo estragar a festa. Mas se passar — e o mercado aposta que passa — o slate combinado de 2027 seria, nas palavras dos analistas da Comscore, "potencialmente o maior faturamento de um único estúdio na história."

O Cardápio: Bifes Grossos e Uns Hambúrgueres

Do lado Warner, a prateleira 2027 é de babar: Godzilla-Kong, Superman, Batman, Minecraft, O Conjuração, Gremlins e Senhor dos Anéis. São franquias que individualmente já provaram que sabem imprimir dinheiro. O último Godzilla-Kong fez US$ 572 milhões no mundo. "O Conjuração: Últimos Ritos" quase bateu US$ 500 milhões em 2025. "O Batman" fez US$ 772 milhões. E "Um Filme de Minecraft" quase encostou na marca de US$ 1 bilhão.

Do lado Paramount, o time é menor mas respeitável: Sonic, Atividade Paranormal, Um Lugar Silencioso e a animação das Tartarugas Ninja. Franquias populares, sim, mas nenhum desses filmes jamais passou dos US$ 350 milhões globais. São os hambúrgueres do cardápio: margem decente, orçamento menor, risco controlado.

É uma combinação estratégica inteligente, se você olhar por cima. Os blockbusters da Warner geram volume bruto de receita. Os filmes da Paramount, com orçamento mais enxuto, entregam lucratividade unitária. Na teoria, um complementa o outro. Na teoria.

O Problema Que Ninguém Quer Discutir

Aqui é onde eu coloco o chapéu de Nassim Taleb e pergunto: quem tem skin in the game?

David Ellison é herdeiro de Larry Ellison, cofundador da Oracle. O cara nasceu numa família que vale mais de US$ 200 bilhões. Quando ele fala em "investir pesado em produção" e "não cortar nada", eu preciso perguntar: com que dinheiro? Com dívida de quem?

Porque fazer 30 filmes por ano não é brincadeira. A Disney, que é a rainha histórica do box office, faz em torno de 20 a 25 lançamentos teatrais anuais e, mesmo assim, tem anos de tropeço feio (alguém lembra de "Indiana Jones 5"? "Wish"?). A própria Disney perdeu o trono brevemente em 2023 pra Universal.

E a Disney não vai ficar assistindo de braços cruzados. O slate deles pra 2027 inclui Era do Gelo, Star Wars, Frozen e — segura essa — Vingadores. Porra, isso é artilharia pesada.

Shawn Robbins, diretor de analytics da Fandango, colocou na mesa com elegância diplomática: "Dobrar dois slates de estúdios grandes aumenta o potencial, mas nada é certo quando se trata de presumir quem será o vencedor anual."

Traduzindo do "corporativês" pro português de boteco: ter mais filme não significa ganhar mais dinheiro.

A Conta Chega

A indústria cinematográfica encolheu dramaticamente na última década. Menos gente vai ao cinema. O streaming canibaliza lançamentos. Os orçamentos de marketing explodiram. E agora alguém quer resolver isso com mais volume?

É como aquele comerciante que perde dinheiro em cada unidade vendida e acha que vai resolver "compensando no volume." Isso não é estratégia. É ilusão contábil.

O mercado de entretenimento em 2027 será um campo de batalha brutal: Disney, Universal, Sony — todo mundo trazendo franquias pesadas. A fusão Paramount-Warner cria um Frankenstein cinematográfico com potencial enorme, sim. Mas Frankensteins têm o costume desagradável de fugir do controle do criador.

A pergunta que vale US$ 111 bilhões: David Ellison está construindo um império — ou está comprando o ingresso mais caro da história pra assistir, de camarote, a própria destruição?