Sabe qual é o problema de 90% dos investidores brasileiros? Eles acham que o mundo acaba na B3, no S&P 500 e, no máximo, num ETF de Nasdaq. Enquanto isso, tem gente ganhando dinheiro quieto em mercados que ninguém aqui sequer olha.
A Poste Italiane — sim, os Correios da Itália — realizou seu Analyst/Investor Day em 26 de fevereiro, apresentando o deck de slides com o plano estratégico da companhia. E se você leu "Correios" e já pensou em ineficiência estatal, filas intermináveis e carteiros perdidos, para tudo. Essa empresa vai te surpreender.
Os Correios que viraram banco, seguradora e fintech
A Poste Italiane não é o que a sua cabeça imagina. Deixou de ser um dinossauro postal faz tempo.
Hoje, a empresa é uma das maiores plataformas de serviços financeiros da Itália. Opera banco (BancoPosta), seguros de vida, gestão de ativos, pagamentos digitais e — ah sim — ainda entrega carta também. É tipo se os Correios do Brasil tivessem comprado o Itaú, a SulAmérica e o PagSeguro de uma vez. Só que funcionando.
A companhia negocia na Bolsa de Milão com ticker PST.MI e aparece nos EUA como PITAF no mercado OTC. E o detalhe que faz toda a diferença: o governo italiano ainda é acionista relevante, mas a gestão é profissional. É capitalismo de Estado quando funciona — coisa rara, eu sei.
O que um Investor Day realmente significa
Vamos ao que interessa.
Um Investor Day não é um evento qualquer. É o momento em que a diretoria olha nos olhos dos analistas e dos grandes fundos e diz: "Esse é o nosso plano para os próximos anos. Coloquem dinheiro aqui."
Infelizmente, o conteúdo detalhado do deck de slides não foi amplamente divulgado além da plataforma do Seeking Alpha — que publicou a apresentação sem transcrição completa, apenas o material visual. Isso é comum: empresas europeias costumam ser mais discretas que as americanas nos seus roadshows.
Mas o timing do evento é revelador. A Poste Italiane tem surfado uma onda de transformação digital que poucos correios estatais no mundo conseguiram executar. Enquanto o Royal Mail britânico virou uma bagunça sindical e os Correios brasileiros... bom, você sabe... a Poste Italiane entregou crescimento consistente de receita e dividendos.
Por que isso importa para quem investe no Brasil
"Ah, mas é OTC, é mercado italiano, não me interessa."
Porra, claro que interessa.
Primeiro: diversificação geográfica não é luxo, é sobrevivência. Quem tinha 100% do patrimônio em ativos brasileiros em 2015 sabe do que eu tô falando. Quem tinha tudo em tech americana em 2022 também aprendeu na dor.
Segundo: empresas como a Poste Italiane representam um modelo de negócio que Nassim Taleb chamaria de antifrágil. Tem receita diversificada — serviços postais, seguros, banking, logística. Se um segmento apanha, outro compensa. Não depende de um único produto, de um único país, de uma única narrativa.
Terceiro: dividendos. A Poste Italiane tem um histórico de dividend yield que faz muito REIT americano passar vergonha. E paga em euro. Num cenário onde o real derrete todo segundo semestre, ter fluxo de caixa em moeda forte não é detalhe — é estratégia.
O elefante na sala
O que me incomoda é a falta de cobertura. Esse tipo de evento deveria gerar análises profundas. Mas o mercado de conteúdo financeiro em português está ocupado demais vendendo curso de day trade e fazendo react de criptomoeda no YouTube.
Enquanto isso, fundos europeus e family offices estão lá, quietos, posicionados em empresas sólidas como essa, acumulando renda passiva em euro e dormindo tranquilos.
Benjamin Graham já dizia: "O mercado é uma máquina de votar no curto prazo e uma balança no longo prazo." A Poste Italiane não vai viralizar no Twitter. Não vai ter influencer fazendo Reels sobre ela. E talvez seja exatamente por isso que vale a pena estudar.
Você vai continuar olhando só pro próprio quintal ou vai pelo menos abrir o mapa?