Enquanto o americano médio tenta entender por que a conta do supermercado não para de subir, Stephen Miran — o cara que Donald Trump plantou dentro do Federal Reserve — vai na CNBC dizer que inflação não é problema.
Leia de novo. Devagar.
"Eu acho que não temos um problema de inflação."
Isso saiu da boca de um governador do Fed. Num dia em que os EUA perderam 92 mil vagas de trabalho — o payroll de fevereiro veio negativo pela primeira vez em muito tempo, e o sujeito basicamente disse: "Relaxa, galera, o problema é outro."
O enredo por trás do personagem
Pra quem não acompanha o circo de Washington, Stephen Miran foi nomeado por Trump pra preencher a cadeira de Adriana Kugler, que caiu fora em agosto de 2025. Desde que sentou naquela poltrona, o cara dissidiu em todas as reuniões do FOMC. Todas. Sem exceção.
Quando o comitê cortou 0,25%, ele queria 0,50%. Quando o comitê segurou os juros em janeiro, ele queria cortar 0,25%. O padrão é claro como água: Miran é um pombo (dove) com megafone, fazendo exatamente o que o chefe dele na Casa Branca quer — juros mais baixos, economia mais estimulada, narrativa de que tá tudo bem.
Se ele pudesse, os juros já estariam em torno de 2,75%, um ponto percentual abaixo da faixa atual de 3,50% a 3,75%. Ele chama isso de "neutro". O consenso dos diretores do Fed em dezembro colocava o neutro em 3,1% — o que implicaria mais dois cortes. Miran quer ir além.
A ginástica mental da inflação
Aqui é onde a coisa fica saborosa.
Miran argumenta que os números de inflação persistentemente altos são mais problema de medição do que de realidade. O exemplo que ele deu? Taxas de gestão de portfólio. Como essas taxas são cobradas como percentual dos ativos, quando a bolsa sobe, o valor em dólar dessas taxas sobe — mesmo que a taxa percentual cobrada não mude.
É um argumento técnico? É. Tem alguma validade? Tem. Mas usar isso como muleta pra dizer que "não temos um problema de inflação" é como dizer que o termômetro tá quebrado porque a febre não combina com o seu diagnóstico.
É a velha história: quando o dado não confirma a tese, ataca-se o dado.
E sobre o petróleo que disparou por causa da guerra com o Irã? Miran mandou aquele clássico do banqueiro central: "O Fed normalmente não reage a choques de petróleo. É um evento pontual."
Pontual. Claro. Como se o sujeito no posto de gasolina se importasse com a distinção entre inflação de núcleo e inflação cheia. A conta chega do mesmo jeito, irmão.
O jogo político que ninguém finge não ver
Vamos ser adultos aqui. Kevin Warsh já foi nomeado por Trump para uma posição que vai substituir Jerome Powell quando o mandato dele acabar em maio. Miran está servindo com mandato tecnicamente vencido desde janeiro, continuando na cadeira até um sucessor ser confirmado.
O que temos é um Fed sendo lentamente remodelado à imagem e semelhança do que a Casa Branca quer. Juros mais baixos, dólar mais fraco, economia estimulada a qualquer custo.
Isso não é teoria da conspiração. É o roteiro escrito em letras garrafais.
Nassim Taleb diria: qual o skin in the game de um governador nomeado politicamente que dissente sempre na mesma direção? Ele não perde dinheiro se estiver errado. Não paga a conta da inflação que eventualmente vier. Quem paga é você, que guarda real no bolso — ou dólar, se for o caso.
O payroll sangrento
Voltando ao que importa: menos 92 mil postos de trabalho. Isso é feio. Não tem como dourar essa pílula.
Três cortes consecutivos de 0,25% no segundo semestre de 2025 trouxeram os juros de 4,50% pra 3,75%. O mercado de trabalho respondeu? Aparentemente não. E a resposta de Miran é a mesma de sempre: corta mais.
A pergunta que ninguém na CNBC fez — e que eu faço aqui — é simples:
Se três cortes não seguraram o emprego, o que te faz acreditar que o quarto ou quinto vai segurar?
Quando a única ferramenta que você tem é um martelo, tudo parece prego. Quando a única resposta que você tem é cortar juros, todo problema parece falta de estímulo.
E se o problema for outro? E se for a guerra, a incerteza política, o protecionismo tarifário que o próprio governo promove?
Porra, às vezes a resposta mais honesta é: "Não sabemos." Mas honestidade não dá ibope na CNBC.