"Preço é o que você paga. Valor é o que você recebe."
Essa frase do Buffett já virou clichê de perfil de Instagram de coach financeiro. Mas sabe por que ela vira clichê? Porque 99% das pessoas repetem ela e 1% realmente aplica na hora de apertar o botão de compra.
E é exatamente nesse ponto que a gente precisa ter uma conversa séria sobre a Nu Holdings.
O Roxinho é bom pra cacete — e daí?
Olha, vou ser honesto: o Nubank é provavelmente a melhor coisa que aconteceu com o sistema bancário brasileiro desde que o Plano Real matou a hiperinflação.
Quem viveu a era de ir numa agência do Banco do Brasil pegar fila às 7h da manhã pra resolver um problema de TED sabe do que eu tô falando. O Nu chegou e fez o que a turma dos bancões não tinha a menor vontade de fazer: tratar o cliente como gente, com um app que funciona e sem aquele gerente querendo te empurrar título de capitalização como se fosse oportunidade.
A aquisição de clientes é absurda. Mais de 100 milhões de clientes na América Latina. Operação escalável de fintech pura. Custo de servir o cliente é uma fração do que os bancos tradicionais gastam com agência física, café frio e segurança armado na porta.
O negócio é lindo? É.
Mas aqui é onde o filme muda de gênero.
O preço da perfeição
Um analista do Seeking Alpha — Christopher Leder, estudante alemão de administração que trabalha na PwC e monta seus próprios modelos em Excel (respeito, moleque tem skin in the game, é long na posição) — trouxe o ponto que todo mundo quer ignorar: o Nu tá caro.
E não é "caro tipo um pouquinho acima do justo". É caro tipo múltiplo de Preço/Valor Patrimonial (P/B) que faz qualquer seguidor de Benjamin Graham ter uma crise de ansiedade.
Sabe o que acontece quando você compra um negócio excelente a um preço absurdo? Você pode ficar anos — ANOS — esperando o fundamento alcançar o preço que você pagou. Pergunte pra quem comprou Cisco em 2000. Empresa boa? Porra, claro que era. Ainda é. O preço levou mais de uma década pra voltar ao topo.
É a diferença entre um bom negócio e um bom investimento. São coisas completamente diferentes.
Os riscos que a galera do "compra e esquece" ignora
Primeiro: concorrência. O Mercado Pago, o Inter, o C6, o PicPay — todo mundo quer uma fatia desse bolo. E os bancões não estão dormindo. O Itaú com o Iti, o Bradesco com o Next (que já matou e ressuscitou). A competição vai apertar margem. É inevitável.
Segundo: regulação. Estamos no Brasil, companheiro. Um país onde o Banco Central pode mudar regra do Pix de uma terça pra quarta, onde CVM inventa circular nova quando dá na telha, e onde qualquer governo — de esquerda ou de direita — pode decidir que fintech "precisa contribuir mais" pro sistema. Risco regulatório no Brasil não é hipótese. É certeza de que alguma surpresa virá. A questão é quando e o tamanho do estrago.
Terceiro: a própria América Latina. Expansão no México e Colômbia é parte da tese de crescimento. Mas operar em mercados emergentes é andar num campo minado de câmbio, instabilidade política e infraestrutura precária. Quem acha que é linear nunca viu a realidade de perto.
Então, não compra?
Não disse isso. Disse que preço importa.
O Leder — que é comprado no papel e mesmo assim tem a honestidade intelectual de chamar de "caro" — segue uma filosofia GARP (Growth at a Reasonable Price). Crescimento a um preço razoável. E o próprio cara tá sinalizando que o preço atual não é lá tão razoável assim.
O Nubank precisa continuar crescendo como uma máquina E defendendo margem ao mesmo tempo, num mercado que vai ficar cada vez mais competitivo. Se tudo der certo, o investidor que comprou hoje vai ganhar dinheiro. Se qualquer engrenagem falhar, o múltiplo comprime e o preço cai como escada — degrau por degrau, sem piedade.
É aquela velha história do Taleb: os riscos que você não vê são os que te matam. E quando todo mundo concorda que algo é maravilhoso, o risco tá escondido justamente no consenso.
Você tá comprando Nu porque analisou os números ou porque todo mundo no Twitter tá falando que é o futuro?
Pensa nisso antes de apertar o botão.