Tem uma cena clássica em Matrix onde o Cypher come um bife suculento sabendo que é falso, e diz: "Ignorância é uma benção." Pois é. Esse é o mercado olhando pros dados de feriado da China agora.
O Ano Novo Lunar — nove dias de feriado, o maior do calendário chinês — terminou com manchetes bonitas. Recorde de passageiros em trens: 18,7 milhões num único dia. Reservas de hotel com ocupação acima de 90% nas cidades litorâneas. Vendas duty-free em Hainan subindo 30,8%. Pacotes de hotel + parque temático na Fliggy (do Alibaba) mais que dobrando em relação ao ano passado.
Lindo. Cinematográfico. Quase dá pra ouvir os analistas suspirando de alívio.
O CCB International Securities soltou um relatório dizendo que os dados "confirmam que o estímulo recente de Pequim está funcionando". O mercado comprou a narrativa. Afinal, quem não gosta de um bife bonito no prato, né?
Mas aqui é onde a coisa fica feia.
O número que ninguém coloca no título
O gasto médio por viagem turística caiu 0,2% em relação ao ano anterior. Isso mesmo. As pessoas viajaram mais, gastaram mais no agregado — mas cada uma delas, individualmente, apertou o cinto.
Leia de novo: deflação no gasto per capita. Em pleno feriado. Com um dia a mais de folga oficial dado pelo governo justamente pra estimular consumo.
Isso não é recuperação. Isso é um paciente que saiu da UTI, tá andando pelo corredor do hospital e o médico já quer dar alta porque precisa da cama.
A Morgan Stanley — que não é exatamente um antro de pessimistas — colocou de forma diplomática: "Consumidores permaneceram cautelosos com o orçamento de forma geral." Traduzindo do economês: o povo chinês tá com medo de gastar. Sentimento melhorou na margem, mas o bolso continua apertado.
O elefante na sala: onde está o estímulo de verdade?
Aqui tá o ponto que o mercado financeiro mainstream não quer enfrentar.
Diferente dos EUA — que, com todos os seus problemas, pelo menos enfiou dinheiro direto no bolso do cidadão durante a pandemia — a China optou por programas de troca e vouchers. Sabe, aquele cupom de desconto glorificado que te obriga a gastar pra "economizar". Não é transferência direta. Não é renda extra. É engenharia de consumo.
Pequim fala muito sobre "aumentar a renda dos consumidores". Mas detalhes? Zero. Nada. Vazio como promessa de político em ano de eleição — e olha que na China nem eleição tem.
E o pior: com esses dados de feriado "bons o suficiente", a probabilidade de um estímulo robusto e direto ao consumidor diminuiu. O CCB mesmo disse que espera "medidas incrementais e direcionadas" nas reuniões parlamentares de março.
Incremental e direcionado. Em chinês burocrático, isso significa: vamos fazer o mínimo necessário pra não parecer que estamos parados.
O jogo de expectativas
O Premier Li Qiang vai anunciar as metas econômicas do ano em 5 de março. Todo mundo sabe que vai ser algo na faixa de 5% de crescimento do PIB. E todo mundo sabe que vai ter um asterisco gigante ao lado desse número.
A China virou mestre em criar a aparência de crescimento sem resolver o problema estrutural. O setor de serviços cresce, turismo sobe, mas o varejo — aquele termômetro real do bolso do cidadão — continua morno desde a pandemia.
É como um cara que posta foto de viagem no Instagram todo mês mas tá devendo três meses de aluguel. A fachada brilha. O alicerce treme.
E por que isso importa pra você?
Porque se você tem exposição a China — via ETFs, commodities, ou empresas brasileiras que exportam pra lá — precisa entender que essa "recuperação" tem pernas curtas.
Nassim Taleb diria: cuidado com a narrativa que te faz sentir confortável. O mercado adora confundir ruído com sinal. Um feriado bom não é tendência. Uma queda de 0,2% no gasto per capita em pleno feriado estendido pelo governo... porra, isso sim é um sinal.
A pergunta que fica é simples: você vai comer o bife do Cypher sabendo que é falso, ou vai engolir a pílula vermelha e olhar os números de verdade?