Tem uma frase do velho Tolstói que nunca envelhece: "Todas as famílias felizes se parecem. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira."

No mundo corporativo, a versão disso é mais simples: toda família rica é feliz — até chegar a hora de dividir o bolo. E quando o bolo vale mais de 100 bilhões de euros, como é o caso da EssilorLuxottica, pode apostar que alguém vai querer a fatia maior.

O que está acontecendo

Segundo o Financial Times, um dos herdeiros da fortuna de Leonardo Del Vecchio — o gênio italiano que fundou a Luxottica praticamente do nada, saindo de um orfanato em Milão para construir o maior império de óculos do planeta — está buscando um acordo multibilionário para comprar a participação dos irmãos na holding familiar Delfin.

Del Vecchio morreu em junho de 2022, aos 87 anos, deixando para trás um patrimônio colossal, seis filhos de três casamentos diferentes, e uma estrutura societária que — por mais sofisticada que fosse — não consegue esconder o óbvio: quando o patriarca vai embora, os lobos começam a circular.

Pra quem não conhece, a Delfin é a holding que controla cerca de 32% da EssilorLuxottica, empresa que fabrica desde as lentes Varilux que sua avó usa até os Ray-Ban que você paga caro pra usar no fim de semana. Passando por Oakley, Persol, Oliver Peoples e uma lista que não acaba. É a dona do jogo. Controla marcas, fábricas, distribuição e até redes de varejo óptico no mundo inteiro.

Por que isso importa (e muito)

Esse não é um simples drama familiar de novela das nove.

A EssilorLuxottica é uma das empresas mais valiosas da Europa. Está listada na bolsa de Paris e tem um market cap que briga com gigantes de tecnologia. O controle acionário via Delfin é o que garante estabilidade na governança — e qualquer racha nessa estrutura pode ter impacto real no preço das ações, nas decisões estratégicas e no futuro da companhia.

Agora pensa comigo: se um herdeiro quer comprar a parte dos outros, ele precisa levantar bilhões de euros. Estamos falando de um deal que provavelmente envolveria bancos de investimento, estruturas de dívida, talvez até venda de ativos. É uma operação de M&A familiar com implicações de mercado aberto.

E aqui entra o ponto que o mercado financeiro mainstream odeia discutir: risco sucessório.

O elefante na sala

Warren Buffett já disse que o maior risco de uma empresa familiar não é o mercado, não é a concorrência — é a transição entre gerações. E Buffett sabe do que fala, porque ele próprio passou anos organizando a sucessão da Berkshire Hathaway para que não virasse um circo.

Del Vecchio, com toda sua genialidade empresarial, deixou uma estrutura onde seis herdeiros têm participações na Delfin. Seis. De três casamentos. Se isso não é receita pra uma temporada inteira de Succession da HBO, eu não sei o que é.

O fato de um herdeiro estar buscando consolidar controle pode ser visto de duas formas:

A otimista: alguém com visão de longo prazo quer evitar a fragmentação e manter a empresa forte. Um capitão no leme. Menos democracia familiar, mais eficiência corporativa. Taleb aprovaria — pelo menos teria skin in the game concentrado.

A realista: quando alguém quer comprar os irmãos, geralmente é porque os irmãos não estão se entendendo. E se não estão se entendendo agora, imagine quando vier a próxima decisão estratégica grande — uma aquisição, uma mudança de CEO, uma reestruturação.

O que o investidor deveria prestar atenção

Se você tem exposição à EssilorLuxottica — diretamente ou via fundos europeus — vale ficar de olho. Não por pânico, mas por pragmatismo.

Empresas com controle familiar concentrado podem ser máquinas de gerar valor (vide LVMH com Bernard Arnault). Mas empresas com controle familiar fragmentado e em disputa podem virar campo minado.

A pergunta que fica: o mercado está precificando o risco de uma briga sucessória que pode durar anos? Ou está todo mundo olhando só pro lucro trimestral e fingindo que a família Delfin é uma grande confraternização de Natal?

Porque se tem uma coisa que a história ensina, é que dinheiro e sangue — quando misturados — raramente produzem finais felizes.

Pergunte aos Gucci. Ou melhor, ao que sobrou deles.