Sabe aquele analista de terno que aparece na TV com aquela cara de quem decifrou o universo, dá um preço-alvo com duas casas decimais e fala com a confiança de um profeta bíblico?
A CAVA acabou de dar um tapa na cara dele.
Wall Street esperava uma queda de 1,1% nas vendas em lojas comparáveis (same-store sales, pra quem ainda não aprendeu o economês). O resultado real? Alta de 0,5%. Parece pouco? Num mercado de restaurantes, com inflação comendo o bolso do consumidor, concorrência absurda e o americano médio cada vez mais seletivo com cada dólar que gasta, isso é a diferença entre sobreviver e prosperar.
A ação subiu mais de 20% em um dia.
Vinte. Por. Cento.
O Consenso É Quase Sempre Um Péssimo Guia
Tem uma coisa que Nassim Taleb repete até a exaustão e que 90% dos investidores de varejo ignoram olimpicamente: o consenso do mercado não é sabedoria coletiva, é mediocridade coletiva. É uma multidão de analistas que se copiam, ajustam os modelos uns dos outros e chegam todos no mesmo número errado, juntos.
Quando todo mundo acha que vai cair e cai menos — ou não cai — a reação do mercado é violenta. Não porque o resultado foi extraordinário em termos absolutos. Mas porque o posicionamento estava torto.
A CAVA não fez milagre. Ela apenas não estragou.
E num mercado que já havia precificado o pior, não estragar é suficiente pra voar.
O Que a CAVA Está Fazendo Certo (Sem o Marketing Bonito)
Vamos tirar o verniz do comunicado corporativo cheio de "value proposition" e "meaningful human connection" — essa linguagem de MBA que me dá urticária — e olhar o que realmente importa.
Primeiro: disciplina de preço. A empresa aumentou os preços em apenas 1,7% no início de 2025. Num setor onde os concorrentes estavam empurrando altas de 5%, 8%, 10% e depois reclamando que o cliente sumiu, a CAVA ficou comportada. Resultado? O cliente não sumiu.
Segundo: expansão real. 72 novas lojas em 2025. Total de 439 unidades. Projeção de mais 74 a 76 em 2026. Isso não é PowerPoint. É tijolo, cimento e operação funcionando.
Terceiro: receita acima de US$ 1 bilhão pela primeira vez na história da empresa. Crescimento de mais de 20% ano contra ano. Isso, meu amigo, não é sorte. É execução.
A CFO Tricia Tolivar falou algo interessante que o mercado provavelmente ignorou nas manchetes: as melhores lojas da rede estão em regiões de renda mediana mais baixa. Ou seja, a CAVA não é restaurante de mauricinho comendo hummus com vista pro Central Park. É acessível de verdade.
Num momento em que a economia americana está se tornando cada vez mais "em K" — onde os ricos ficam mais ricos e a classe média vai se esfacelando — ter um produto que fala com os dois lados da curva é uma vantagem competitiva real. Não é narrativa. É dado.
O Perigo de Amar Demais Depois do Rali
Aqui vem a parte que ninguém quer ouvir depois de um dia de alta de 20%.
A ação da CAVA não é barata. Nunca foi. Ela negocia com múltiplos que exigem que tudo continue funcionando muito bem por muito tempo. Qualquer tropeço — uma rodada de abertura de lojas que decepciona, uma pressão de custo que aperta a margem, um consumidor americano que decide que quer cortar gastos de verdade — e o mercado vai ser igualmente implacável na descida.
Lembra o que Buffett diz? "Preço é o que você paga. Valor é o que você recebe." Uma empresa boa comprada cara ainda é um mau negócio.
O entusiasmo de hoje pode ser o remorso de amanhã.
Não estou dizendo que a CAVA vai cair. Estou dizendo que comprar qualquer coisa depois de um salto de 20% em um dia, movido pela euforia da manchete, é exatamente o tipo de comportamento que enriquece o investidor do outro lado da operação — aquele que comprou antes, esperou o resultado e agora está te vendendo com prazer.
Pensa nisso antes de colocar o order na corretora hoje às 10 da manhã, animado com o número que você leu numa notificação de celular.
Quem te vendeu essa ação agora sabe algo que você não sabe — ou está apostando que você não vai parar pra pensar.
A pergunta não é se a CAVA é boa empresa.
A pergunta é: a que preço ela é boa pra você?