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segunda-feira, 6 de junho de 2016

A ética da especulação financeira


Inúmeras são as atividades que uma pessoa pode exercer para delas extrair seu sustento, garantindo assim sua sobrevivência. Algumas são mais primitivas, como o ribeirinho que planta e pesca com o objetivo de alimentar a si mesmo e sua família, comercializando o excedente de sua produção para garantir a aquisição de outros bens que necessite. E na ponta mais extrema, a universalmente ilícita prática do roubo com o uso da violência. Entre esses dois extremos, a humanidade inventou milhares de formas de transformar esforço – físico, intelectual ou ambos – em meio de sobrevivência remunerado.

O exemplo anterior permite concluirmos que podem existir meios lícitos, e meios ilícitos, meios honestos e meios desonestos, meios éticos e meios cuja ética é objeto de questionamento por algumas pessoas ligadas a determinada cultura.

O assunto da ética é, por sua própria natureza, controverso, dado que ética é um conceito flexível, que se ajusta conforme tempo, lugar e meio social.

Em nosso país, temos historicamente alimentado a visão de que o lucro é algo de moral questionável, feio, até mesmo pecaminoso conforme a atividade que se exerce para obtê-lo. Nos Estados Unidos da América, ao contrário, o lucro e a obtenção de riqueza são considerados uma demonstração inequívoca de que o criador do universo se agrada daquele que prospera, baseado no conceito subjacente de abundância natural do planeta. Este conceito, gerador da cultura Americana, foi desenvolvido pelo Filósofo Max Weber em seu livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (Alemanha, 1904).

A operação no mercado bursátil, seja ele de ações, commodities ou futuros, é vista, por muita gente, como uma atividade eticamente questionável, visão esta que está baseada nos conceitos de remuneração por esforço de produção e no de utilitarismo. A partir disso, toda e qualquer atividade, digamos, inútil, seria ética e moralmente questionável. Dentro dessa visão nós, os traders, chamados de especuladores, seríamos objeto de questionamento da sociedade leiga.

Tomado em seu sentido mais restrito, a palavra especulação descreve as operações que são feitas com o único propósito de obter um lucro a partir de mudanças no preço de um ativo qualquer. Desse modo, quando você compra um carro barato com o propósito de vendê-lo mais caro, você está especulando.

Nesta linha de pensamento, poderíamos estender este raciocínio para qualquer tipo de atividade comercial existente no planeta, da barraca de camelô às grandes redes de supermercado.

Portanto, visto desta forma bastante crua, toda atividade que vise a obtenção de lucro sem agregação de valor, deveria ser considerada uma especulação sendo, portanto, objeto de questionamento daqueles que criticam a atividade especulativa no mercado bursátil.

Se nas atividades comerciais, busca-se moralmente justificar a obtenção do lucro a partir de uma série de benefícios trazidos ao mercado por aquela atividade como por exemplo, capilaridade, distribuição, geração de emprego e etc., na atividade de trading não poderia ser diferente. Nós, os traders, exercemos um papel fundamental no mercado financeiro mundial.

Sendo a maior parte do mundo capitalista, as finanças desempenham um papel fundamental na manutenção de toda a cadeia produtiva. É o dinheiro, afinal que, em última análise, sustenta toda a roda de produção e consumo.

O mundo financeiro é composto basicamente por quatro grandes agentes: o hedger, que tem por função primordial proteger o capital que será de algum modo utilizado produtivamente, o arbitrador que obtém lucro a partir de diferenças de preços momentâneas entre ativos, o investidor que, pensando a longo prazo, financia a atividade produtiva e viabiliza o crédito e, finalmente, o especulador.

Aqui cabe uma conversa à parte, já que o especulador é o agente que promove e que, em última análise, viabiliza a liquidez dos mercados, sem a qual nenhum mercado existiria. Este agente é o grande responsável pelo giro do dinheiro pelas bolsas de todo o mundo.

O especulador, ao arriscar seu próprio capital na esperança de obter lucro com a volatilidade dos preços, gera liquidez ao mercado, contribuindo para diminuir o risco de todos os outros agentes que, se não houvesse tal liquidez, não colocariam seu dinheiro ali.

A especulação nos mercados ajuda até mesmo a mitigar os riscos da atividade produtiva. Imagine um produtor de soja que empenha seu capital na certeza de que poderá vender sua produção a um preço justo, valendo-se para isso dos mercados futuros.

Se o mercado agrícola não pudesse contar com o trabalho dos especuladores, só os produtores e consumidores participariam das transações comerciais, o que traria o poder de negociação para poucas mãos, abrindo portas à formação de cartéis em prejuízo da massa de consumidores. Além disso, sem a atividade especulativa, não haveriam garantias de liquidez nos títulos, limitando a confiança do produtor agrícola.

Percebe-se assim o importante papel que o trader desempenha na manutenção do mundo capitalista, não havendo absolutamente nada questionável do ponto de vista ético na profissão, já que sua atividade agrega imenso valor à toda cadeira financeira do planeta.

Alguém poderia então apelar para o senso comum dos não participantes do mercado financeiro e afirmar que a atividade é um jogo de soma zero, ou seja, que para alguém ganhar, outro terá necessariamente que perder.

Embora isso possa parecer verdade aos olhos daqueles que desconhecem a profundidade do mrcado financeiro, não se pode afirmar necessariamente que alguém perderá, visto que muito do capital que gira nas bolsas provêm da atividade produtiva, alimentando-a, financiando-a e, finalmente, fazendo crescer e gerar mais dinheiro. O capital entra e sai dos mercados financeiros a cada minuto, financiando a atividade industrial e de serviços, que o fará crescer, trazendo-o de volta, num ciclo virtuoso de geração de valor. A constatação disso é que a soma de capital aplicado em bolsa não é a mesma de há um século.

Entre os traders, poderá eventualmente ocorrer que o lucro de um signifique o prejuízo temporário de outro

Ora, se o mercado é aberto a qualquer pessoa, com igualdade de acesso e de condições, se não há regras para favorecer ou punir um grupo pré-determinado de participantes, e ninguém é forçado a participar, como pode o ato de especulação ser antiético ou imoral? Todos os que participam da atividade, conhecem exatamente os riscos e as implicações da profissão.

É uma atividade voluntária onde as regras são bem definidas e geralmente bem aplicadas, sendo até reguladas e policiadas pelos agentes financeiros. A tentativa de quebrar, dobrar ou manipular as regras ou outros participantes de maneira fraudulenta, pode ser imoral e antiético, mas isso é escolha do especulador, e não da atividade mesma da própria especulação. Para esses casos existem normas regras e punições.

Compare isso com, digamos, um cassino ou qualquer modalidade de jogos chamados de azar, onde a transferência de risco se dá em apenas uma direção, onde tampouco existe atividade produtiva, e cujo objetivo maior é o de facilitar a transferência de riqueza dos clientes/jogadores para o casino. Não é à toa que tais estabelecimentos oferecem mordomias como bebidas, refeições e transporte grátis. para poder seduzir clientes, coisa que não se vê nas bolsas de valores. Na bolsa, jamais alguém mandará você parar de atuar porque está ganhando muito dinheiro a partir de uma atividade lícita, ao contrário do que ocorre nos cassinos.

Percebemos então que não há nenhuma razão para considerar a atividade especulativa como descolada da ética. O que há é a ignorância – no sentido de ignorar, de desconhecer – das pessoas que não atuam no mercado, que criam fantasias mentais a partir de concepções morais criadas muito tempo antes da existência da própria atividade em bolsa de valores.

Não permita que julguem sua profissão de modo negativo. O trading é uma atividade tão nobre e útil como qualquer atividade lícita que se escolha para dedicar sua vida e dali extrair seu sustento. Você ganha, o mundo ganha. A roda do capital e do consumo depende de nós, traders.


Eduardo Becker
Trader e Professor

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